Sophia Dorothea de Celle, a princesa prisioneira

(Representação visual gerada por IA)

Histórias reais de princesas podem contrariar grosseiramente as doces narrativas de finais felizes que envolvem estas damas da realeza. A vida de Sophia Dorothea de Celle, que ostentou os títulos de Princesa de Hanover, Eleitora Princesa de Brunswick-Lüneburg, Duquesa de Ahlden e ainda aclamada por seus simpatizantes como “rainha não coroada da Inglaterra”, é um desses exemplos infelizes. O destino da nobre nascida em 1666 no Castelo de Celle, na Alemanha, contrariou as expectativas que foram criadas em torno de sua representação e conexões. Ela era filha do influente e poderoso duque George William de Brunswick-Lüneburg e de Éléonore Desmier d’Olbreuse e foi criada em meio aos requintes da nobreza, recebendo as orientações adequadas para se tornar uma cobiçada pretendente para casamentos dinásticos.

Não faltaram possibilidades para moça, que chegou a ser cortejada e especulada para casamento com duque de Wolfenbüttel e com o príncipe herdeiro da Dinamarca até ser aceita como noiva do primo, o príncipe George Louis, neto do rei James I da Inglaterra e futuro rei George I. A noiva não desejava esta união e chegou a manifestar sua contrariedade, mas as vontades das mulheres não eram levadas em consideração diante dos acordos matrimoniais formados para consolidar vínculos políticos, então o casamento foi celebrado em 1682, quando ela tinha 16 anos de idade.

A partir da união indesejada, a vida da princesa Sophia Dorothea foi marcada pela infelicidade conjugal e pela falta de afeto entre marido e mulher. A vida na corte de Hanover também era desagradável, pois ela recebia constantes críticas por sua inadequação aos costumes e por sua condição de origem, pois, embora filha legítima e herdeira da imensa fortuna familiar, o casamento entre seus pais era morganático, condição na qual um dos conjugues (em seu caso, a mãe) não possuía status nobiliárquico reconhecido. Além dessas dificuldades, era rejeitada pela sogra, Sophia de Hanover, neta do rei James I e elo de conexão com a linha de sucessão ao trono britânico.

George Louis desprezava a esposa e deixava sempre claro que a união foi fruto de entendimentos políticos e não por uma conexão pessoal e sentimental entre os dois, apesar de terem tido dois filhos, o príncipe George Augustus (futuro Rei George II) e a princesa Sophia Dorothea de Hanover (que posteriormente se tornou rainha da Prússia). O marido era rude com a esposa e não evitava o tratamento desrespeitoso diante do público, expondo a princesa a constrangimentos frequentes. Os casos extraconjugais de George Louis eram frequentes e causavam atritos entre o casal, afetando ainda mais o péssimo relacionamento.

A frustração e infelicidade despertou em Sophia Dorothea o impulso de viver uma situação de alívio pessoal, ocasião de seu envolvimento amoroso com o conde sueco Philipp Christoph von Königsmarck. Ela tentou manter o caso em segredo, mas sua infidelidade conjugal foi revelada e Königsmarck desapareceu misteriosamente em 1694, provavelmente vítima de um assassinato ordenado pelo sogro para “preservar a honra” da família real. O adultério fez Sophia Dorothea cair em desgraça, motivando o marido infiel a mover uma ação de divórcio contra ela alegando abandono e desrespeito aos votos matrimoniais. A decisão favorável ao herdeiro do trono teve como um de seus efeitos a providência punitiva de confinamento de Sophia Dorothea no Castelo de Ahlden.

A vida em Ahlden foi caracterizada pelo isolamento, pois sua comunicação com o mundo exterior era mínima. Apesar de ter conforto, dispor de serviçais, contar com uma bem servida provisão regular dos recursos que assegurassem seu bem-estar e ser beneficiária dos ganhos obtido pela atividade da propriedade e das terras ao seu redor, ela era uma prisioneira vigiada e sem permissão de sair dos limites da propriedade. Visitas precisavam ser autorizadas pelo pai e quem entrasse em contato indevido com Sophia Dorothea poderia sofrer punições impostas pelo próprio pai dela, o conde George William de Brunswick-Lüneburg. Todas as cartas que emitia ou recebia eram lidas primeiramente por agentes de vigilância, o que assegurava um nível intenso de controle sobre ela. Sua mãe era a única visitante constante que recebia e ela nunca mais voltou a ver os seus filhos, que foram proibidos de estabelecer contatos. O ex-marido decidiu manter a situação de isolamento quando foi coroado rei em 1714, recusando todos os apelos que ela fez por liberdade.

Sua situação mobilizou simpatizantes, principalmente entre os críticos de George I e da Casa de Hanover e foi explorada em publicações contra o rei e sua dinastia germânica. Muitos ingleses exemplificavam o confinamento como exemplo de crueldade do monarca e, apesar dos apelos e das manifestações de apoio, sua situação não mudou e ela viveu 32 anos no isolamento em da prisão domiciliar, falecendo em 1726 aos 60 anos de idade.


Referências: