Moremi, a Libertadora dos Iorubás

(Representação visual gerada pela IA Leonardo)

Algumas figuram extraordinárias foram capazes de deixar legados tão significativos que suas existências acabaram presentes igualmente na história e no universo das lendas. O fluxo dos relatos orais sobre feitos notáveis de personagens marcantes seguiu através de gerações em sociedades que acabam mitificando figuras históricas, personificadas como exemplos de heroísmo, virtude e identidade. Aspectos sobrenaturais e fantásticos podem ser adicionados ao processo celebração dos grandes vultos admirados por um povo, proporcionando um caráter especial às narrativas a seu respeito.

Moremi de Ifé é um exemplo marcante de alguém que habita a história e a lenda. Ela viveu no século XII em Ile-Ifé, cidade importante e sagrada da terra dos iorubás, na atual Nigéria.

Sua cidade autônoma era um centro comercial vigoroso que reunia pessoas de diversas procedências e que era constituída por uma população envolvida em variados afazeres, conforme o esperado em um lugar de intensa atividade econômica. A prosperidade de Ifé também causava problemas, pois atraía os interesses de invasores e promovia um ambiente ameaçador constante. O povo Ugbo figurava como um imenso perigo para Ifé, pois seus enviados ocasionalmente atacavam e levavam pânico aos habitantes. Estes vizinhos agressivos apareciam vestidos de palhas de ráfia, dando-lhes uma aparência assustadora associada aos seres malignos do imaginário popular. Os religiosos e místicos habitantes de Ifé recorriam aos rituais tradicionais em busca de defesa, praticando seus atos de sacrifício e aplicando as rotinas cerimoniais exigidas pelos deuses. Apesar dos clamores, os agentes do mal voltavam e seguiam atormentando a cidade e sua gente, que precisava de uma figura heroica para agir em seu favor.

O Reino de Ile-Ifé era comandado por Oranmiyan, filho de Oduduwa, o fundador da etnia Yoruba​. Oranmiyan se casou com Moremi Ajasoro, que assumiu um compromisso pela proteção de seus súditos. Ela invocou Esimirin, a força divina das águas, oferecendo o que tivesse de mais importante em favor do povo.

Em mais um brutal ataque dos Ugbo, Moremi foi capturada e levada até a terra dos invasores. O rei inimigo se encantou pela beleza de Moremi e ela aceitou ser cortejada para saber mais a respeito daqueles que aterrorizavam Ifé. Ela logo descobriu que eles não eram entidades, pois não passavam de homens comuns disfarçados de seres trevosos. A rainha fugiu e voltou para sua terra para transmitir sua descoberta, ajudando o povo a montar uma defesa eficaz para surpreender os invasores. Quando os Ugbo voltaram foram prontamente atacados pelos moradores de Ifé, que portavam tochas e incendiaram as vestes de palha dos agressores, que foram definitivamente derrotados.

Moremi cumpriu sua promessa e ofereceu seu tributo à Esimirin, sacrificando seu único filho. Como a vitória e felicidade da comunidade foi o resultado de um ato de sofrimento e perda para Moremi, o povo resolveu compensar a rainha e todos se declararam seus filhos.

Moremi foi honrada por celebrações que se transformaram em práticas tradicionais e sua lenda se popularizou. A rainha foi até incorporada à religião, sendo venerada por fiéis até nos dias presentes diante da majestosa Estátua da Liberdade da Rainha Moremi, um dos mais importantes monumentos da Nigéria. 


Referências:

2 comentários

Os comentários estão fechados.