Mary East/James How: Uma vida dupla em busca de autonomia

(Representação visual gerada pela IA Leonardo)

As normas sociais da britânica do século XVIII eram altamente restritivas sobre a possibilidade de liberdade e autonomia feminina. Neste meio, a eventualidade da constituição de um relacionamento entre duas mulheres era algo ainda mais incomum e sujeito a severas censuras. Apesar disso, duas delas protagonizaram um caso duradouro de vida em comum sob disfarce e desafio aos padrões estabelecidos.

Mary East e sua companheira, cuja identidade permaneceu preservada, chegaram a ter experiências e desilusões amorosas com rapazes, então resolveram que preferiam a companhia uma da outra quando tinham, respectivamente, 16 e 17 anos. Elas tramaram viver juntas e fugir de suas casas Londres, mas sabiam que a situação não seria simples e que jamais passariam despercebidas como duas mulheres. Decidiram que uma delas teria que adotar uma identidade masculina e sustentar tal mentira por uma questão de sobrevivência e preservação. Elas apelaram para a aleatoriedade do “cara e coroa” para definir quem se passaria por homem e Mary foi escolhida pela moeda. Ela comprou roupas masculinas e adotou a identidade de James How.

Em 1732, as duas foram embora para o interior assim que definiram os planos. Inventaram histórias de vida falsas e ensaiaram um comportamento que pudesse iludir outras pessoas. O Casal How se estabeleceu primeiramente em Epping, onde trabalharam em uma pequena taverna e acumularam experiência com o serviço cotidiano e com os aspectos mais complexos do ramo de negócios. Juntaram suas economias e partiram de lá em busca de novas oportunidades comerciais com uma clientela maior, então investiram em um estabelecimento em Limehouse.

Em 1745 um novo horizonte para seus empreendimentos foi revelado quando adquiriram a White Horse Public House, uma taverna próspera em bem localizada em Poplar. Os negócios progrediram consideravelmente e elas estavam lucrando bastante e recebendo o reconhecimento da comunidade como pessoas produtivas e envolvidas no desenvolvimento local.

O segredo delas era guardado através de muita precaução e esforço para manter uma vida discreta. Não recebiam visitas em casa e cuidavam do estabelecimento sozinhas, evitando ter funcionários domésticos que pudessem observar de perto suas rotinas e comportamentos íntimos. James How reforçava seu papel masculino participando de atividades comunitárias tipicamente reservada aos homens, embora algumas suspeitas sobre sua “efeminação” fossem comentadas entre uns e outros.

Apesar de todos os cuidados, o senhor e a senhora How não conseguiram sossego porque foram reconhecidos por alguém que fazia parte de suas convivências pregressas. Uma certa senhora Bentley conhecia suas verdadeiras identidades e resolveu fazer disso um motivo para obter vantagens deles. A extorsão envolvia pagamentos para comprar o silêncio de bisbilhoteira, que estava cada vez mais ambiciosa.

A senhora How morreu em 1766, o que foi causa de enorme tristeza de James. Mas este não era seu único problema, pois a chantagista não desistiu de promover sua exploração e chegou a contratar dois indivíduos para espancar James depois de ser recusar a pagar ainda mais dinheiro pelo silêncio da senhora Bentley. Os capangas se passaram por policiais e ameaçaram enforcar How, mas ele conseguiu escapar e foi socorrido por um vizinho.

Depois do incidente, How resolveu processar a exploradora, mas isso exigia a medida drástica de revelar sua identidade de Mary East diante das autoridades judiciais. Apesar do choque inicial da situação, os agressores e a mandante do crime foram considerados culpados e sentenciados a penas de detenção. A exposição pública de sua vida dupla teve consequências e foi ordenado o definitivo abandono da identidade falsa, obrigando sua retomada à apresentação feminina e uso de seu nome original.

Esta situação afetou sua atuação nos negócios, forçando a venda de seu estabelecimento e de vários bens, além do afastamento das funções cívicas. De volta à vida como Mary East, passou a adotar uma vida reclusa. Esta mudança não afetou suas condições de sustento, pois ela tinha à disposição uma fortuna proveniente das reservas que preservou e da arrecadação de muito dinheiro quando se desfez de suas operações comerciais e posição nos negócios.

Mary East morreu em 1780, aos 64 anos. Deixou seu patrimônio e consideráveis somas de dinheiro para os necessitados da cidade e para alguns parentes.


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