Ao longo da história, as mulheres enfrentaram inúmeras restrições impostas por parâmetros que limitavam severamente suas liberdades e escolhas. Essas restrições variavam desde a proibição de acesso a determinadas profissões e espaços públicos até a imposição de papéis domésticos restritivos. Estes limites, porém, não deixaram de ser desafiados por muitas mulheres que desejaram exercer atividades e seguir carreiras que eram impedidas. Várias adotaram disfarces masculinos como forma de burlar as normas sociais e tais disfarces permitiram a algumas de se alistarem em exércitos, estudarem em instituições de ensino reservadas aos homens e trabalharem em profissões dominadas por homens.
Um exemplo notável foi a russa Nadezhda Andreyevna Durova, que, na primeira metade do século XIX, desafiou as convenções de gênero de sua época. Nascida em 1783, ela era filha de um oficial do exército e cresceu fascinada pelos assuntos militares. Isso causava desconfortos na família, pois sua mãe exigia dela um comportamento que era reconhecido como adequado para uma moça, mas a influência de seu pai estimulava os interesses dela. A situação chegou a um ponto de fazer a jovem Nadezhda renegar os papéis atribuídos às mulheres e a fugir de casa para ingressar no exército sob disfarce e identidade masculina.
Em 1801, ela foi forçada a se casar com um homem chamado Vasily Chernov e teve um filho dois anos depois, mas a vida de dona de casa lhe causava profunda insatisfação, motivando sua decisão estrema de fugir de casa, abandonar a família e viver conforme seu desejo em 1806.
Depois de ir embora, ela se apresentou à corporação militar como Alexander Sokolov e conseguiu ingressar no regimento dos hussardos. Sua disposição e envolvimento na luta foram logo testados durante as Guerras Napoleônicas, quando ela atuou em diversas batalhas e missões com distinção, merecendo até o reconhecimento após salvar um comandante, o que lhe rendeu a condecoração com a Cruz de São Jorge, uma das mais altas honras militares da Rússia. A capacidade em combate e a bravura diante dos perigos favoreceram sua promoção para a oficialidade.
Um pequeno grupo de confidentes no exército sabia de sua identidade, que foi preservada mesmo depois de receber recebeu um tiro na perna durante uma ação em combate. Preocupado com a situação, seu pai escreveu para autoridades do alto comando militar a respeito do peculiar ingresso de sua filha no exército e a informação chegou até o czar Alexandre I. A revelação de sua falsa identidade, porém, não causou transtornos nem constrangimentos. O próprio czar fez questão de conhecer e cumprimentar pessoalmente o alegado oficial Sokolov, que recebeu agradecimentos pelos serviços desempenhados com bravura e patriotismo.
Em 1816, aos 33 anos, seu serviço no exército foi encerrado e conseguiu uma pensão como capitão reformado. Sua agitada rotina militar cedeu lugar a um novo estilo de vida discreto e pacífico, mas sua provocação aos costume foi persistente porque decidiu manter a identidade masculina e fazia questão de receber tratamento e referência como homem, uma forma de afirmar claramente sua identificação de gênero.
Resolveu se dedicar à literatura, escrevendo variadas obras, que incluía romances e contos, porém seu livro mais notável foi o registro autobiográfico “A Donzela Cavaleira”. Seu trabalho escrito abordava a perspectiva sobre aspectos patrióticos e ousados posicionamentos a respeito dos papéis sociais de gênero na sociedade russa, enfatizando a liberdade para que mulheres pudessem exercer sua autonomia.
Sokolov manteve sua disposição cooperativa e dedicou-se a causas filantrópicas depois de se estabelecer em Elabuga, nos Montes Urais. Sua disposição para ajudar pessoas necessitadas era tamanha que sacrificava frequentemente seu próprio bem-estar e recursos, doando praticamente tudo o que recebia de pensão ou pela venda de sus livros para beneficiar pessoas vulneráveis na comunidade. Quando morreu, em 1866, não tinha patrimônio nem reservas financeiras e tampouco se importava com isso quando vivia.
Referências:


[…] Nadezhda Durova: A Amazona do Exército Russo […]
[…] Nadezhda Durova, a dama que se tornou soldado e decidiu viver como homem […]
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