Uma paixão pode ser capaz de fazer alguém encarar desafios extremos e a história da inglesa Anne Jane Thornton é um exemplo disso. Nascida em 1817, ele perdeu a mãe quando tinha apenas 6 anos de idade e acabou indo com o pai para Donegal, na Irlanda. O senhor Thornton era um comerciante sempre ocupado com seus negócios e criou a menina com relativa liberdade, embora esperasse que ela seguisse os rumos comuns para mulher daquela época e contexto. Mas a moça tinha outros planos.
Aos 15 anos ela já estava apaixonada por Alexander Burke, que era um capitão de navio americano. O romance precisou ser interrompido por causa do retorno de Burke para sua terra natal, o que deixou sua jovem noiva desesperada. Pouco depois da partida do capitão, a saudade de Anne já era incontrolável e ela teve a ideia de ir sozinha até os Estados Unidos para encontrar seu amado.
Disfarçada de rapaz e adotando o nome de Jim Thornton, Anne se ofereceu para trabalhar a bordo de um navio que partiria com destino a Nova York. Ela embarcou discretamente como garoto de cabine, ocupação desempenhada geralmente por jovens que realizavam serviços como ajudantes na limpeza, auxiliares na cozinha e outras tarefas subalternas. No decorrer da viagem ela seguiu seu disfarce cumprindo as obrigações trabalhando nas árduas rotinas de quem prestava serviços gerais nas exigentes condições da embarcação e conseguiu desembarcar sem despertar suspeitas a respeito de sua identidade e gênero.
Para sua amargura e infelicidade, ela soube que Alexander Burke estava morto. A situação foi difícil para uma jovem de 16 anos longe de casa, sem abrigo e desempregada. Ela precisou encontrar uma maneira de sobrevier, apesar de seu estado emocional desolado, então persistiu em sua falsa apresentação masculina e foi procurar trabalho nos navios, voltando a oferecer seu serviço como auxiliar de bordo. A moça delicada resolveu lidar com a dor passando a ser uma trabalhadora braçal calejada pela dureza e insalubridade das condições desgastantes do serviço, manipulando instrumentos de trabalho, carregando peso, aplicando piche e se arriscando para fazer tarefas de manutenção em mastros, encarando desafios climáticos e percalços da vida no mar sem reclamar entre 1833 e 1835.
Ao longo do tempo trabalhando sob a identidade de Jim Thornton e vestindo roupas masculinas ocorriam desconfianças a respeito de sua identidade por causa suas feições. Alguns marinheiros caçoavam do ajudante do rosto feminino e voz fina. Anne foi finalmente descoberta quando um dos marujos flagrou enquanto ela cuidava de sua higiene, revelando seus seios involuntariamente. O homem quis tirar proveito da situação, chantageando Anne ao propor que ou elas faziam sexo ou ela seria denunciada. Diante da situação, ela preferiu anunciar para todos sua verdadeira identidade.
Ela sofreu maus-tratos e insultos até chegar em Londres, onde sua condição acabou chegando aos ouvidos de autoridades públicas. O próprio Lord Mayor (prefeito) londrino se envolveu pessoalmente no caso e retirou Anne do convívio abusivo com os marinheiros, providenciando sua volta segura para casa na Irlanda.
Ainda em 1835 ela resolveu registrar sua experiência num livro intitulado “The Interesting Life and Wonderful Adventures of that Extraordinary Woman Anne Jane Thornton, the Female Sailor” (“A Vida Interessante e as Maravilhosas Aventuras da Extraordinária Mulher Anne Jane Thornton, a Marinheira”), relato que chamou a atenção do público, gerou propostas de trabalho no teatro e até rendeu benefícios permanentes, pois o rei Guilherme IV lhe concedeu uma pensão anual.
Ela se casou em 1836, teve um filho no mesmo ano e depois passou a levar uma vida discreta longe dos mares até falecer aos 60 anos de idade, em 1877.
Referências:


[…] Anne Jane Thornton, uma marinheira num mar de paixão, sofrimento, desafios e preconceitos […]