Na cidade de Londres do século XIV a prostituição era uma opção de sobrevivência para muitas mulheres em situação vulnerável, apesar de ser uma atividade moralmente renegada e ilegal conforme uma variedade de leis locais, embora pudesse ser tolerada e até regulamentada em situações especiais. Entendimentos ambíguos defendiam que a prostituição, apesar de todos os aspectos negativos, era uma espécie de mal necessário porque protegia as mulheres respeitáveis dos impulsos luxuriosos dos homens, que poderiam que recorrer aos corpos das mulheres que já estavam “perdidas” para a satisfação de seus desejos. Assim, lugares como os “stews”, prostíbulos em áreas definidas, eram permitidos sob regulação para a prática da prostituição, embora as mulheres que atuavam em tais ambientes frequentemente fossem exploradas e marginalizadas sem qualquer proteção.
Prostitutas que eventualmente fossem flagradas realizando seus serviços fora dos limites admitidos para o exercício de suas atividades eram sujeitas a lidar com as autoridades e esta situação acabou ocorrendo com Eleanor Rykener, envolvida num caso que revelou aspectos que iram além da prostituição. Eleanor estava em companhia de um certo John Britby num distrito comercial londrino em certo dia de dezembro de 1394 quando um agente da lei desconfiou dos dois e conseguiu realizar uma abordagem em flagrante enquanto praticavam os “detestáveis delitos”. Depois disso eles foram conduzidos diante das autoridades municipais para a prestação de depoimentos.
Rykener declarou que aprendeu logo cedo o ofício de bordadeira, mas a atividade não era suficiente para assegurar sua subsistência e por isso recorria à prática sexual em troca de pagamento. Aparentemente ela não atuava nos distritos destacados para o funcionamento dos prostíbulos, o que deixava sua situação ainda mais complicada diante das autoridades. Suas origens são obscuras, mas ela declarou que estava em constante mudança de cidades e por onde passava tentava trabalhar com seu ofício, mas acabava mesmo recorrendo à vida de profissional do sexo para se manter.
A revelação mais contundente de Rykener não foi sobre sua atuação ilegal como prostituta em locais indevidos, mas a respeito de sua identidade: Eleanor também era John. Em seu passado, quando se identificava como o jovem John Rykener, conheceu uma prostituta chamada Anna que iniciou sua prática sexual “à maneira de uma mulher” e a bordadeira chamada Elizabeth Brouderer, que lhe ensinou sua arte e a se vestir e se portar como uma mulher, apresentando ainda Eleanor aos ambientes dos praticantes de luxúria. Embora os registros não expressem isso claramente, é possível imaginar que os sentimentos e conflitos íntimos do rapaz em relação à sua identidade de gênero eram sérios ao ponto de motivar sua decisão de encarar uma mudança tão significativa em uma época de imensas dificuldades de entendimento e aceitação das condições e situações não conformes sobre gênero e sexualidade. Mesmo assim, a identidade feminina acabou sendo sua expressão pública, pois adotou um nome feminino e passou a se vestir e exercer um ofício tipicamente de mulher.
Em sua atuação como trabalhadora do sexo, Eleanor declarou que realizava encontros íntimos tanto com homens quanto com mulheres solteiras ou casadas e que entre sua clientela incluíam-se clérigos e freiras, embora sua aparição e vivência pública fosse apresentada consistentemente como mulher, ou seja, as pessoas atendidas por Eleanor poderiam perceber sua condição como pessoa transgênero no momento de intimidade do encontro sexual ou já desconfiavam e até sabiam disso mesmo antes da consumação da interação e desejavam a experiência de qualquer forma.
Não são conhecidos os registros posteriores ao depoimento, o que não permite saber o que aconteceu com Eleanor. Era usual, no entanto, que casos de sodomia fossem abordados como crimes graves na época, recebendo punições severas que poderiam até mesmo incluir a morte de seus praticantes.
Entre bordados e bordéis, entre o masculino e o feminino, entre John e Eleanor, esta história evidencia a longevidade das dificuldades que as culturas e sociedades apresentam para lidar com as sempre presentes questões de inconformidade de gênero.
Referências:
- Interrogation of John/Eleanor Rykener
- The Questioning of Eleanor Rykener (also known as John), A Cross-Dressing Prostitute, 1395
- The Rykener Case: Gender and Sex in fourteenth-century England
- John/Eleanor Rykener
- London in the 14th century
- An Ambiguity: The Criminality of Prostitution in Late 14th Century London, England


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