Chica da Silva, a ex-escrava que virou senhora escravista

(Representação visual gerada pela IA Leonardo)

Chica da Silva ou Francisca da Silva de Oliveira é uma personagem da história brasileira que teve uma experiência como escrava e como senhora de escravos na sociedade colonial das Minas Gerais. Ela nasceu nas imediações de Diamantina entre 1731 e 1735, filha de uma mulher escrava e um capitão português.

Quando ainda bem jovem foi vendida para o médico português Manuel Pires Sardinha e empregada como serviçal doméstica. Era comum que senhores exercessem o seu poder através do domínio físico e sexual sobre as mulheres escravizadas e diante destas situações eram frequentes as situações de gravidez. Chica acabou tendo um filho com o doutor, fato que não impediu que continuasse sob a condição de cativa e passível de novas negociações. Ela acabou revendida em 1753, indo parar sob o domínio de João Fernandes de Oliveira, agente do governo que administrava os negócios com a mineração de diamantes na região e pouco depois iniciaram um relacionamento e Chica foi libertada.

O vínculo entre os dois era público e reconhecido na comunidade, embora não tenha sido oficializado por um casamento. Chica era chamada de “dona” pelas pessoas, tratamento que mulheres negras não costumavam receber no contexto da sociedade escravista e exercia atividades na gestão dos assuntos domésticos e dos bens do casal. Esta ascensão social surpreendente e incomum não era plenamente aceita no Arraial do Tejuco, gerando desconforto em parte da elite branca por causa da ameaça às normas e hábitos estabelecidos na sociedade escravista, pois a a posição de uma mulher negra de passado escravo entre a alta sociedade era uma afronta ao status da segregação da época. Os ressentimentos e críticas eram manifestados através de comentários e mesmo evitando sua companhia, apesar de seus laços com um dos homens mais ricos da colônia. Chica, por outro lado, empregava recursos à sua disposição para assegurar sua posição e marca na sociedade, financiando irmandades religiosas, promovendo eventos sociais e impondo sua presença sem se retrair diante dos eventuais descontentamentos alheios.

Chica da Silva foi bastante representada de maneira estereotipada, apresentada como uma mulher lasciva que usava da sedução para obter seu êxito social, porém as análises lúcidas avaliam que se tratava de uma mulher de notável inteligência, astúcia e carisma que favoreceram sua capacidade de transitar por meios onde sua participação era improvável. Assumindo papéis ativos nos assuntos e negócios da família e promovendo ações através das instituições religiosas que influenciava, era também comprovou capacidades de atuação e autonomia que iam até mesmo além do que eram regular entre muitas mulheres livres da elite em seu tempo.

Chica adotou marcantes aspectos da posição elitizada que atingiu. Sua promoção social também lhe favoreceu através do acesso a uma condição de vida abastada, com luxos e recursos que ela não deixou de desfrutar e exibir. Ela foi até mesmo senhora e exploradora de numerosos escravos que estavam sob seu domínio, outro sinal da complexidade de sua situação.

Chica e João Fernandes conviveram até 1771, ocasião do retorno de seu companheiro para Portugal. Ele levou consigo os seus herdeiros masculinos, filhos que teve com Chica, para que recebessem uma elevada educação na Europa. João Fernandes nunca retornou ao Brasil, mas Chica não ficou desamparada porque suas filhas permaneceram em sua companhia e ela assumiu o comando das propriedades e negócios brasileiros, garantindo a continuidade de sua condição como figura da elite de Tejuco.    

Chica da Silva morreu em 15 de fevereiro de 1796, tendo entre 61 e 65 anos de idade. Foi sepultada na na Igreja de São Francisco de Assis em Tejuco, local geralmente destinado para a elite branca.


Referências: