Olga de Kiev, a santa que promoveu um genocídio por vingança

(Representação visual gerada pela IA Midjourney)

Olga de Kiev nasceu por volta do ano 900 na atual Pskov, na Rússia, perto da fronteira com a Estônia. Ela era varangiana, descendente dos primeiros vikings que se estabeleceram na região, e não tinha mais de 15 anos quando se casou com o grão-príncipe Igor I, governante do Rus de Kiev (um território que cobre o que hoje são partes da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia). Entre os povos que viviam no Rus estavam os drevlianos, aliados e súditos dos antecessores de Igor I, seu pai Rurico e seu tutor e regente Oleg em guerras contra os bizantinos. Investido ao trono, o soberano Igor I resolveu fazer uma visita nada amistosa à Korosten (na atual Ucrânia), capital dos drevlianos, para cobrar tributos que deixaram de pagar desde sua coroação, mas os anfitriões não foram nada acolhedores e decidiram prender, torturar e esquartejar o grão-príncipe. Além do assassinato, os vizinhos rebeldes ainda queriam mais: enviaram seus diplomatas até a presença de Olga propondo que ela se casasse com seu assassino, o príncipe Mal, em sinal de pacificação e aliança. Ocorre que a viúva tinha outros planos e retribuiu a hospitalidade ordenando que os emissários drevlianos fossem enterrados vivos. O recado estava dado: ela queria vingança e seguiu este plano no decorrer dos 15 anos seguintes enquanto regia o Rus em nome de seu filho, o príncipe Esvetoslau.

Após o incidente com os diplomatas, Olga tramou mais um gesto ao comunicar ao líder drevliano que ainda estava disposta a negociar a paz e o casamento desde que um novo grupo de emissários fosse enviado até Kiev. Desta vez Mal enviou seus mais condecorados comandantes, experientes homens de guerra que já lutaram ao lado do Rus. Olga recebeu os guerreiros com aparente hospitalidade e lhes ofereceu o conforto do relaxamento em uma de suas casas de banhos, porém, ao instalar os convidados por lá, o lugar foi trancado do lado de fora e incendiado para matar os homens queimados.

Os drevlianos deveriam ter entendido o recado, mas caíram em mais uma cilada. Olga enviou mais uma mensagem informando que iria pessoalmente e em paz até Korosten para chorar no local da morte de seu marido. Ela realmente foi e na ocasião foi ofertado um grande banquete regado por muito hidromel. A bebedeira foi tamanha que os drevlianos viraram presas fáceis para o exército de Olga que chegou sorrateiro e massacrou mais de 5 mil pessoas em apenas uma noite. Olga prometeu voltar para exterminar os sobreviventes que não foram escravizados.

Os drevlianos acreditavam que a questão seria resolvida por meio do pagamento dos tributos e enfim se dispuseras a ofertar o que era devido, mas Olga fez uma misteriosa contrapartida para quitar a dívida: “Dê-me três pombos e três pardais de cada casa. Não desejo impor um tributo pesado, como meu marido, mas exijo apenas este pequeno presente de vocês”. Os drevlianos caíram num golpe de Olga novamente! Recolheram tantos pássaros quanto puderam, mas era outro engodo da ardilosa regente do Rus, que estava preparada para aproveitar a desarticulação de suas vítimas e executou seu plano de incendiar as simplórias edificações de madeira e palha da população drevliana. Quem conseguia escapar das chamas não encontrava salvação: era morte ou escravidão.

O tratamento especial dedicado aos drevlianos serviu também para outro propósito: alarmou outros povos e tribos subjugados sobre os riscos da desobediência e da irregularidade no cumprimento dos tributos. Olga firmou e fortaleceu o poder da coroa e entregou a regência ao seu filho com segurança.

Depois de toda esta experiência com execuções, queimando pessoas queimadas indistintamente e destruindo sem clemência um povo inteiro, Olga ainda virou santa. Em uma viagem para Constantinopla, capital do Império Bizantino, ela encontrou-se com o imperados Constantino VII e com o patriarca católico e acabou se convertendo e assumiu a missão de também promover a conversão dos súditos do Rus. O imperador bizantino aproveitou para obter de Olga mais uma mudança ao pedi-la em casamento, mas dessa vez ela recusou sem a necessidade de mais nenhum assassinato e justificou a negação dizendo que não era apropriado casar-se com aquele que era seu padrinho de batismo.

Olga tentou convencer sem sucesso seu filho Esvetoslau I a cristianizar o Rus e morreu em 969 sem ver este processo começar. Ela recebeu um ritual fúnebre cristão, mas seu túmulo em Kiev foi destruído por ocasião da invasão tártaro-mongol no século 13. O Seu neto, Vladimir, resolveu cumprir o desejo da avó e adotou oficialmente o cristianismo como religião do Rus em 988.

Em 1547 a Igreja Católica Ortodoxa decidiu canonizar Olga como santa por sua condição de desbravadora da fé cristã na região. Suas milhares de vítimas não impediram sua santificação, afinal, eram todas pagãs!


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