Na corte francesa os reis e outros homens de altas posições sociais podiam manter casos extraconjugais de maneira aceitável pelos costumes e era admitida a existência da maîtresse-en-titre, isto é, uma amante oficial que, embora não tivesse status de esposa legítima, tinha o relacionamento reconhecido publicamente e até podia contar com determinados direitos e vantagens decorrentes da posição. Algumas amantes reais foram mulheres de bastante destaque e influência, a exemplo das nobres Marquesa de Montespan (1640-1707), Marquesa de Pompadour (1721-1764) ou da Marquesa de Maintenon (1635-1719), que chegou a casar com Luís XIV, sendo assim “promovida” à esposa oficial do monarca.
Outra maîtresse-en-titre famosa foi Marie-Jeanne Bécu (1743-1793), mais conhecida como Madame du Barry ou ainda Condessa du Barry, amante oficial do rei Luís XV. A trajetória de Marie-Jeanne não se assemelha ao que se verificou entre a maioria das cortesãs mais íntimas do poder, pois ela não provinha de uma linhagem da nobreza. Sua mãe, Anne Bécu, trabalhava como costureira e aparentemente tinha casos considerados inadequados, pois o pai de sua filha era provavelmente um homem do clero cuja identidade não foi revelada. Outro amante de Anne ajudou a jovem Marie-Jeanne a ter um destino do que poderia sugerir a sua condição de origem e recorreu à sua influência para providenciar seu ingresso num convento. Ela não chegou a se tornar uma noviça, pois lhe faltava a devida vocação, mas sua passagem pela instituição religiosa lhe proporcionou instrução.
A independente Marie-Jeanne precisou ganhar a vida em Paris como uma trabalhadora. Sua beleza e desenvoltura favoreceram sua atuação como vendedora e depois como profissional do sexo, atividade que proporcionou encontros com homens ricos influentes como Jean du Barry, um nobre libertino e escandaloso conhecido por agenciar prostitutas e administrar um bordel de luxo. Através dos contatos deste homem ela acabou chegando ao Palácio de Versalhes, onde chamou a atenção de figuras importantes na corte. Através de um arranjo matrimonial, Jean articulou o casamento de Marie-Jeanne o seu irmão, o conde Guillaume du Barry, o que elevou seu status e abriu as portas dos recintos mais reservados do imenso palácio, onde ela poderia enfim se envolver com o próprio Luís XV, um rei viúvo de sua rainha e que também perdera sua principal amante oficial, a Marquesa de Pompadour.
A jovem condessa de 25 anos logo despertou a paixão do monarca, um mulherengo notório de 58, que resolveu fazer da cortesã sua nova maîtresse-en-titre, oficializando sua apresentação em 1769. Mas isso não foi o bastante para assegurar sua aceitação mesmo considerando que a condição de amante real oficial não fosse malvista pela sociedade. A manobra de sua elevação à nobreza não escondia sua origem plebeia e tampouco seu passado recente na prostituição, situações que causaram rejeição na corte e na família real.
A Madame du Barry não chegou nem de longe a ter a influência de sua antecessora, que tinha trânsito entre as lideranças políticas e era uma importante conselheira do rei, mas conseguiu estabelecer laços com gente poderosa dentro e fora da corte, como a rainha Maria Teresa da Áustria, mãe da futura rainha Maria Antonieta. Suas tentativas de conquistar respeito em Versalhes foram encerradas com a morte do rei, em 1774. Ela foi banida da corte e se refugiou em seu próprio castelo, que recebeu de presente de Luís XV, e lá viveu longe das atenções, teve novos relacionamentos amorosos até conviver com o duque de Brissac, um nobre de origens britânicas.
Com o advento da turbulenta Revolução Francesa, seu amante foi assassinado e ela foi embora da França, assim como vários nobres que conseguiram fugir do país, mas acabou subestimando os riscos e voltou para tratar de assuntos relativos à sua herança sobre as propriedades do duque. Em seu retorno, em setembro de 1793, a Condessa du Barry foi reconhecida e presa, julgada sob a acusação de conspirar contra a revolução e condenada à morte na guilhotina. Diante do apuro em que se encontrava, ela denunciou conhecidos e entregou o esconderijo de joias na esperança de se safar da condenação, o que apenas implicou em perigo para quem ela denuncio. Durante o período revolucionário conhecido como “O Terror”, clemência era algo que não era possível esperar, assim ela não conseguiu evitar o desfecho trágico da execução em 8 de dezembro de 1793. Ela tinha 50 anos na ocasião de sua morte.
Referências:

