O povo Rapa Nui e os gigantes de pedra da Ilha de Páscoa

(Representação visual gerada pela IA Mage)

Era o domingo de Páscoa de 1722 quando uma expedição comandada pelo navegador holandês Jacob Roggeveen acabou chegando a uma ilha remota no Oceano Pacífico. Mesmo habituados a realizar viagens distantes e sabendo que os mares podem guardar surpresas, os exploradoras acharam estranho aquele local praticamente sem árvores. Os europeus perceberam que o local era habitado por uma gente que ergueu enormes ídolos de pedra. As primeiras impressões sobre a população foram de estranhamento, pois não eram indígenas americanos e alguns pareciam ter características de outros povos polinésios, conhecidos pelos tripulantes mais experientes.

Em 1770 outros europeus visitaram a ilha, desta vez espanhóis que tiveram mais tempo para observar o ambiente e as pessoas e puderam determinar que os nativos compunham uma população de cerca de 3 mil habitantes, mas depois de quatro anos em uma nova expedição, agora chefiada pelo britânico James Cook, uma situação muito mudada, pois apenas 30 mulheres e por volta de 700 homens estavam por lá, todos aparentando uma situação precária de desolação e miséria, com várias de suas imponentes estátuas derrubadas. Em contatos seguintes ao longo dos anos a população isolada passou por variadas situações, com o contingente se recuperado num tempo e sofrendo mais abalos demográficos depois, variações que estavam associadas a fatores como epidemias de doenças introduzidas pelos estrangeiros, guerras internas envolvendo as 12 tribos nativas, escravidão e efeitos da situação ecológica em um ambiente devastado.

As magníficas estátuas gigantes, os moais, sinalizavam que ali, antes dos contatos com os europeus, floresceu uma sociedade de notável esplendor, situação que em 1786 o navegador francês Jean-François de Galaup, o conde de La Pérouse, já concluía. Supõe-se, pelas características linguísticas e com o reforço recente de estudos genéticos, que a população original da Ilha de Páscoa, que os nativos chamavam de Rapa Nui, era de procedência polinésia, formada por indivíduos que colonizaram o local. Acredita-se que esses primeiros habitantes tenham migrado em barcos e se estabeleceram na ilha em um período ainda indefinido, com análises que sugerem que a ocupação ocorreu a partir do início do século XIII, apesar de existirem hipóteses indicando que a presença humana por lá seja anterior a este período.

O povo de Rapa Nui acreditava que o mítico rei Hotu Matua’a foi o responsável pelo povoamento da ilha, que na época era rica em vegetação, lar para aves e com fartos cardumes ao seu redor. Os primitivos habitantes também instituíram seus cultos sagrados e acreditavam que a energia espiritual continuava presente após a morte, o que motivou a veneração aos antepassados e a crença de que eles ainda exerciam influência sobre o plano existencial.

Esta crença foi um fator importante para a construção das monumentais estátuas megalíticas em forma de figuras humanas de cabeças alongadas conhecidas como moais. Especula-se que essas estátuas possam representar líderes falecidos de sua comunidade e desempenhar um papel importante em seu sistema de crenças. Além disso, os moais também poderiam servir como uma espécie de conexão visual/física entre os mundos espiritual e secular, atuando como um canal de comunicação com os ancestrais e uma representação do poder e prestígio dos clãs. As grandes estátuas de rocha vulcânica eram esculpidas na pedreira Rano Raraku e engenhosamente transportadas para os seus locais definitivos, ficando geralmente posicionadas voltadas para as aldeias, indicando proteção.

Os nativos se empenharam durante gerações no esforço de elaborar suas estátuas, que foram ficando cada vez maiores e mais complexas ao ponto de acabarem contribuindo para o desgaste da sociedade que as construíam. O processo de construção consumia os minguados recursos disponíveis na ilha numa fase de superpopulação entre e entre as tribos ocorreu uma espécie de competição que colocava a estabilidade local em risco, pois os conflitos tribais acabavam ocorrendo. Em decorrência disso, crença foi prejudicada, a construção dos moais entrou em decadência e diversas estátuas foram derrubadas pelo próprio povo, situação que coincidiu com a chegada dos exploradores estrangeiros e dos missionários cristãos. Após disputas estrangeiras pelo controle da ilha, em 1877 foi notada a existência de apenas 111 nativos. 

O Chile se apossou da ilha em 1888, anexando-a ao seu território enquanto franceses e britânicos reivindicavam sua posse. A ilha foi explorada como local para prática da pecuária de ovinos e comunidade nativa remanescente viveu sem reconhecimento e foi proibida de usar o idioma nativo. Somente em 1966 os rapanuís descendentes dos habitantes primitivos da ilha tiveram cidadania e naturalidade chilena reconhecidas.