Vida e pensamento de Thomas Hobbes

(Representação visual gerada pela IA Midjourney)

Thomas Hobbes nasceu prematuramente em Westport, agora parte de Malmesbury, Wiltshire, Inglaterra, em 5 de abril de 1588. Seu pai, também chamado Thomas, era o vigário de Charlton e Westport e fugiu para Londres após ser envolvido em uma briga de porta de igreja, deixando a esposa e três filhos na responsabilidade do irmão mais velho do filósofo, também chamado Thomas. A família Hobbes era de origem modesta, mas o tio de Hobbes era suficientemente próspero para proporcionar ao jovem Thomas uma boa educação. Ele foi educado localmente e depois foi para a escola de Malmesbury e, posteriormente, ao Magdalen Hall, da Universidade de Oxford, onde estudou clássicos. Hobbes deixou Oxford em 1608, com uma educação clássica tradicional.

A atividade intelectual de Thomas Hobbes ganhou contorno após sua graduação, quando ele se tornou tutor para o filho do poderoso Conde de Devonshire, William Cavendish. Essa posição deu-lhe a oportunidade de viajar pela Europa, onde encontrou-se com pensadores e cientistas proeminentes, como Galileu Galilei e René Descartes, cujas ideias sobre a natureza física e sobre o racionalismo tiveram uma influência significativa sobre seu pensamento. O período que passou como tutor e secretário também o introduziu à corte e à política inglesa, expondo-o às intrigas e aos debates que certamente influenciaram suas concepções sobre o poder e a sociedade. Durante suas viagens, Hobbes começou a desenvolver sua visão sobre a filosofia e a ciência, orientando-se cada vez mais para uma visão mecanicista do mundo, que via o universo e seus componentes, incluindo os seres humanos, como máquinas complexas. A influência do método científico e da matemática foi marcante em seu trabalho posterior, sobretudo na forma como ele abordou questões políticas com um olhar para a precisão e a argumentação dedutiva. Esses anos de formação e as influências recebidas foram cruciais para que Hobbes elaborasse suas teorias políticas, que ele começaria a articular de maneira mais sistemática em seus textos após retornar à Inglaterra na década de 1630.

A Inglaterra estava imersa em profundo conflito e agitação política. O século XVII foi marcado pela luta entre o poder da monarquia e os direitos do Parlamento, culminando na Guerra Civil Inglesa (1642–1651). Hobbes vivenciou o declínio do poder absolutista da monarquia e o subsequente conflito que levou à execução do rei Carlos I em 1649. A atmosfera de incerteza, medo e caos que acompanhou esses eventos moldou profundamente seu entendimento sobre a natureza humana e a necessidade de um poder soberano forte. Ele concebeu a política como um domínio onde a segurança e a ordem eram primordiais, uma vez que, em sua visão, a condição natural dos homens sem um poder central seria uma “guerra de todos contra todos” (bellum omnium contra omnes). Hobbes argumentava que somente um governo absoluto poderia garantir a paz e evitar o retorno ao caos do estado de natureza. Assim, o contexto de conflitos civis e a busca pela estabilidade na Inglaterra foram a tela de fundo que inspirou Hobbes a defender a necessidade de um contrato social e de um soberano absoluto, que se tornariam conceitos centrais em sua obra-prima, o “Leviatã”.

Publicada em 1651, a obra “Leviatã” é considerada uma das mais importantes contribuições para a teoria política ocidental. No “Leviatã”, Hobbes delineia uma visão sistemática do estado de natureza humano, onde a ausência de autoridade política gera um ambiente de medo e conflito, caracterizado pela famosa descrição da vida como “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. Para escapar desse estado, argumenta Hobbes, os indivíduos concordam em estabelecer um contrato social, cedendo seus direitos naturais a um governante ou assembleia em troca de ordem e proteção — o soberano, ou Leviatã, uma metáfora para um governo com poderes quase absolutos, derivado da criatura bíblica monstruosa que representa uma autoridade incontestável e temível. Hobbes teoriza sobre o governo, a sociedade e a moralidade a partir de uma perspectiva mecanicista e materialista, algo revolucionário para a época. Com “Leviatã”, ele influencia não apenas o pensamento político, mas também a compreensão da natureza humana e da organização social, estabelecendo as bases para o desenvolvimento do liberalismo, do contratualismo e da filosofia política moderna. A obra reflete as preocupações de Hobbes com a ordem, a estabilidade e a segurança em meio às turbulências políticas de sua época, oferecendo uma justificativa para a existência do Estado e seu poder sobre os indivíduos.

No contexto de sua publicação, a obra provocou controvérsias, especialmente pela defesa inabalável de um poder soberano quase absoluto em uma época em que muitos na Inglaterra lutavam por maior liberdade parlamentar. No entanto, com o passar do tempo, “Leviatã” transcendeu seu contexto imediato, oferecendo perspectivas sobre a natureza humana, a ética e a governança que formaram a base do moderno contratualismo e influenciaram o desenvolvimento de teorias políticas sobre a soberania e a legitimidade do Estado. Hobbes introduziu conceitos que se tornaram essenciais para o liberalismo e a democracia moderna, como o consentimento governado e a necessidade de uma autoridade central para evitar a anarquia. O significado do “Leviatã” repousa em sua habilidade de provocar um debate contínuo sobre como equilibrar a autoridade do Estado com os direitos e liberdades dos indivíduos, uma questão que permanece central nas discussões políticas contemporâneas. A obra permanece como um ponto de referência obrigatório para estudantes, acadêmicos e qualquer pessoa interessada nas dinâmicas do poder, da autoridade e da organização social.

Mesmo em seus últimos anos, Hobbes continuou a escrever e debater com outros intelectuais, embora suas visões por vezes atritassem com as ortodoxias religiosas e políticas, o que lhe causou problemas com as autoridades. No entanto, sob a proteção do Conde de Devonshire, ele conseguiu continuar seu trabalho intelectual até o fim de sua vida. Hobbes morreu em Hardwick Hall, Derbyshire, em 4 de dezembro de 1679, aos 91 anos de idade. Seu legado perdura não apenas nas ideias que formulou, mas também na abordagem rigorosa e sistemática que adotou para estudar a filosofia, a ciência e a sociedade, influenciando a maneira como pensamos sobre estes temas até hoje.

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