A guerra de independência do México, que se estendeu de 1810 a 1821, foi um processo complexo e tumultuado que refletiu as profundas transformações sociais e políticas ocorridas na América Latina durante o início do século XIX. Iniciada com o famoso “Grito de Dolores” pelo padre Miguel Hidalgo em setembro de 1810, essa luta foi caracterizada por uma série de levantes e conflitos armados que buscavam libertar o território mexicano do jugo espanhol. A campanha pela independência foi marcada por alianças frágeis entre diferentes grupos sociais, que possuíam distintas visões sobre o futuro da nação. Após uma década de conflito e com a assinatura do Plano de Iguala e dos Tratados de Córdoba, o México conseguiu finalmente sua autonomia em 1821. No entanto, a independência não significou a resolução imediata dos desafios internos, e o país enfrentou, nas décadas subsequentes, uma série de lutas internas para definir sua identidade e seu caminho como nação soberana.
Uma dessas mudanças foi a decisão de se estabelecer como uma monarquia. Influenciados em parte pelas tradições políticas europeias e pelo desejo de estabilidade após uma longa guerra de independência, os líderes do movimento de independência, incluindo Agustín de Iturbide, um ex-oficial realista que se juntou às forças insurgentes, viram na monarquia uma solução potencial para a unidade e ordem do país. Em 1822, Iturbide foi proclamado imperador do México, assumindo o título de Agustín I.
Agustín Cosme Damián de Iturbide y Arámburu, nascido em 27 de setembro de 1783, em Valladolid (hoje Morelia), no Vice-Reino da Nova Espanha, foi uma das figuras mais emblemáticas do processo de independência do México. Descendente de uma família espanhola abastada, Iturbide iniciou sua carreira militar ao serviço da coroa espanhola, distinguindo-se rapidamente pelas suas habilidades e pela sua lealdade ao regime colonial. Durante os primeiros anos da guerra de independência, ele combateu ferozmente as forças insurgentes. No entanto, ao perceber as mudanças tectônicas na política e na opinião pública, e também influenciado por divergências com superiores e pelas reformas liberais da Espanha, Iturbide fez uma aliança improvável com o líder insurgente Vicente Guerrero em 1821. Juntos, eles formularam o Plano de Iguala, que defendia uma independência baseada na igualdade entre espanhóis e mexicanos e na proteção da Igreja Católica. Este plano, unindo facções anteriormente opostas, pavimentou o caminho para a independência mexicana. Quando o Vice-Reino da Nova Espanha se dissolveu, Iturbide, inicialmente proclamado como líder do Exército Trigarante, foi subsequentemente coroado como monarca.
O reinado de Agustín I como imperador do México foi curto e turbulento, estendendo-se apenas de 1822 a 1823. Ao assumir o trono, Iturbide enfrentou inúmeros desafios. Economicamente, o país ainda se recuperava dos estragos da longa guerra de independência. Políticamente, existiam divisões profundas entre os que apoiavam a monarquia e os que defendiam uma república. Além disso, Iturbide, que havia alcançado o poder através de uma combinação de habilidades militares e alianças políticas, rapidamente demonstrou tendências autocráticas. Ele dissolveu o Congresso e tentou governar por decreto, o que exacerbou as tensões com facções republicanas e mesmo com alguns de seus antigos aliados. A falta de reconhecimento internacional e a resistência interna à sua liderança culminaram em revoltas e conspirações contra seu regime. Enfrentando crescente oposição e percebendo a inviabilidade de sua posição, Iturbide abdicou em março de 1823 e partiu para o exílio na Itália. Seu breve reinado ressalta a instabilidade e as incertezas que o México enfrentou em seus primeiros anos como nação independente.
Após abdicar do trono imperial em 1823, Agustín I embarcou em um período de exílio, primeiro na Itália e depois na Espanha. Durante esse tempo, ele observava atentamente os eventos políticos no México, nutrindo a esperança de retornar e desempenhar um papel significativo na política do país. Contudo, seu breve e conturbado reinado havia deixado muitos ressentidos e desconfiados de suas intenções. Em 1824, o México promulgou uma nova constituição republicana e, simultaneamente, o Congresso mexicano declarou Iturbide traidor e estipulou que, se ele retornasse ao México, seria imediatamente executado. Desafiando essas proibições, em 1824, Iturbide decidiu voltar ao México na crença de que ainda contava com um amplo apoio popular. Infelizmente para ele, ao chegar, foi rapidamente capturado pelas autoridades. Em julgamento sumário, foi condenado à morte. Em 19 de julho de 1824, Agustín de Iturbide foi executado por fuzilamento em Padilla, Tamaulipas, marcando um trágico fim para uma figura que desempenhou um papel central na independência do México.
O estabelecimento de monarquias nas ex-colônias espanhola e portuguesa da América Latina, especificamente no México e no Brasil, reflete as complexidades e nuances da independência na região. No México, a monarquia sob Agustín I foi breve, durando menos de um ano e surgindo principalmente como resultado das alianças e circunstâncias políticas pós-independência. Em contraste, o Brasil estabeleceu uma monarquia mais estável sob a Casa de Bragança, com o rei Dom João VI e, posteriormente, seu filho Pedro I e seguido pelo longo reinado de Pedro II. Os dois processos de independência foram tumultuados, mas através de ações muito diferentes, pois no caso mexicano houve uma verdadeira guerra generalizada e sangrenta pela independência que culminou com o estabelecimento no centro do poder de grupos diretamente envolvidos no conflito. Além disso, enquanto a monarquia brasileira tinha raízes na linhagem real portuguesa, no México estabeleceu-se como imperador uma liderança anteriormente leal à Espanha.
Anos depois da execução de Iturbide, o México fez uma segunda tentativa de estabelecer um governo monárquico com a oferta do trono ao arquiduque Maximiliano da Áustria em 1864. No entanto, essa segunda experiência imperial também foi efêmera, durando apenas três anos e culminando na execução de Maximiliano em 1867. Enquanto o México viu a proclamação de dois reinados e a execução de dois imperadores, o Brasil persistiu como monarquia até 1889.


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