Micaela Bastidas: A força mestiça e revolucionária na Rebelião de Tupac Amaru II

(Representação visual gerada pela IA Midjourney)

Micaela Bastidas Puyucahua (1744-1781) era filha de Manuel Bastidas, um homem provavelmente mestiço afrodescendente, e de Josefa Puyucahua, uma mulher inca. Nasceu no povoado pobre de Tamburco, no Peru. Era conhecida como “La Zamba”, apelido empregado para caracterizar sua condição mestiça, pois a palavra “zamba” equivale ao termo português “cafusa”, que corresponde à miscigenação entre nativos indígenas e negros. Apesar de não ser comum para meninas em sua condição, foi alfabetizada e depois casou-se com José Gabriel Condorcanqui, membro da elite indígena e descendente da nobreza inca, que adotou a identidade de Tupac Amaru II.

Condorcanqui ajudou a família de Micaela a mudar-se de Tamburco para Surimana, onde possuía propriedades, negócios e influência. No entanto, sua jovem esposa levou consigo a experiência que teve em sua terra natal, reconhecendo as condições precárias de vida e exploração dos indígenas e dos mestiços como ela. Em Surimana, ela ajudava e, em muitos momentos, administrava os negócios do marido, que também tinha compromissos como liderança tribal. Quando ele foi nomeado cacique dos povos indígenas de Pampamarca, Tungasuca e Surimana, o casal se estabeleceu na cidade de Tinta, próxima de Cusco.

Quando eclodiu a rebelião liderada por Tupac Amaru II, em 1780, ela rapidamente assumiu um papel importante no movimento, percorrendo povoados e cidades, conclamando as massas para que aderissem à causa, além de atuar também como estrategista, planejando ações. Apesar de sua convicção sobre a causa, era uma mulher realista e pragmática, percebendo circunstâncias que muitas vezes não eram consideradas por seu marido. Foi confiada a ela a administração do movimento, sendo tesoureira, comissária de guerra, dirigindo campanhas de arrecadação, alocação de suprimentos de guerra, articulação com lideranças locais e alistamento de participantes nas milícias rebeldes. Era chamada de “Señora Gobernadora” pelos colaboradores.

Frequentemente, discordava de decisões do marido por acreditar que não eram as mais eficientes para a estratégia do movimento e apresentava sugestões, instruções e alertas. Numa das cartas endereçadas a Tupac Amaru II, advertiu que muitos dos combatentes rebeldes que lutavam ao seu lado não estavam na revolução apenas em nome da causa e poderiam abandonar a luta caso não recebessem salários, como qualquer soldado profissional, fato que se confirmou com a deserção em massa quando a revolta atingiu uma fase crítica. Outro traço marcante de sua personalidade era seu autoritarismo; entre os rebeldes, muitos temiam contrariar as ordens de Micaela, pois ela não hesitava em impor retaliações e vinganças.

Ao longo dos cinco meses de rebelião, exerceu a função de chefe do governo revolucionário e incentivava a radicalização do movimento.

Para alguns membros da administração colonial, Micaela era uma figura ainda mais perigosa que o próprio marido, e foi estipulado um alto preço por sua captura. Ela era contrária à união da revolta com as facções criollas (descendentes brancos de espanhóis nascidos na colônia) e não confiava em espanhóis supostamente dissidentes, prevendo que esses grupos trairiam o movimento caso se juntassem, o que realmente ocorreu.

Quando a revolta foi suprimida e seus líderes foram presos, ela foi a penúltima a ser executada, sendo forçada a testemunhar as mortes de dois de seus filhos. Foi submetida a torturas e mutilações antes de ser finalmente executada.

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