Friné: a provocativa “top model” da Grécia Antiga

(Representação visual gerada pela IA Leonardo)

De origem pobre, Mnesarete, nasceu na cidade de Téspias por volta de 371 a.C. e viveu principalmente em Atenas, onde ficou conhecida como Friné, atuando como hetera (cortesã que prestava serviços sexuais) e modelo, fazendo fama e fortuna ao longo de seus cerca 60 anos de vida (não se sabe exatamente quando ela nasceu ou morreu, o período é estimado por estudiosos a partir do contexto e indícios).

Ela era reconhecida como a mulher mais bela de Atenas em seu tempo e era também inteligente e ousada, frequentando círculos poderosos e participando de atividades nas quais convivia e dialogava com as pessoas mais influentes e mentes mais privilegiadas da importante pólis grega, tendo sido amante de muitos desses homens. Diversas fontes contemporâneas citam o quanto Friné era diferente das mulheres de alta classe atenienses, pois normalmente elas eram reclusas e submissas, enquanto ela era ativa e foi capaz de gerar uma vultosa riqueza que era administrada por conta própria. É reconhecido um episódio no qual ela se ofereceu para reconstruir a muralha da cidade de Tebas, destruída durante a passagem de Alexandre, O Grande, exigindo como contrapartida pelo financiamento apenas que fosse exibido no local os dizerem “Muralhas destruídas por Alexandre e reconstruídas por Friné”, mas as autoridades recusaram sua proposta provocativa.

Sua beleza arrebatadora encantou olhares, imaginações e muito mais e Friné tirou o máximo de proveito disso. Ela mantinha cotidianamente seu corpo oculto de propósito, vestindo peças da época como chitons e peplos longos e compostos, mas no tradicional festival de Eleusis para a deusa Deméter e na Poseidonia, celebração do solstício em honra de Poseidon, ela exibia publicamente sua nudez e virava atração e motivo para comentários.

Friné era a musa viva inspiradora de artistas e seu corpo era “emprestado” para dar forma a deusas, sobretudo Afrodite, em obras criadas por artistas reconhecidos. Em sua atividade como modelo, Friné serviu como referência estética e física para representações que se tornaram marcantes, posando para diversos artistas. Praxíteles e Apeles, os maiores artistas atuantes em Atenas na época, recorriam à visão da beleza de Friné para criar. Afrodite Anadyomène, que foi uma das obras-primas de Apeles, foi uma pintura aclamada pela beleza e perfeição que foi reconstituída através de várias versões posteriores e que chegou a inspirar a famosa tela O Nascimento de Vênus do gênio renascentista Botticelli, que desejou reviver a icônica obra de Apeles que foi destruída. A escultura Afrodite de Cnido, de Praxíteles, trazia uma representação impressionante de nudez da deusa da beleza e do amor através da reprodução das formas de Friné e também virou referência para novas esculturas semelhantes (inclusive muitas cópias da escultura original que também não existe mais).

Mas nem só de beleza e admiração viveu a linda cortesã e modelo. Ela se envolveu em uma polêmica que quase a fez ser condenada à morte. Ela foi acusada de impiedade e o fato de ter sido modelo viva para que deusas fossem esculpidas e pintadas à sua imagem não ajudava, então foi levada ao tribunal em 350 a.C. por um ex-amante (ou cliente), o orador Eutias, que figurava como seu acusador. Em sua defesa, o eminente Hipereides (que também foi seu amante) recorreu a um gesto apelativo: arrancou as vestes da acusada em pleno tribunal e, apontando para os seios de Friné, perguntou aos jurados se o que viam não seria obra divina. Friné foi absolvida.  

Friné destaca-se não apenas como emblema da beleza feminina, mas também como símbolo da ousadia e resistência da mulher em um contexto dominado por homens. Em Friné, vemos a intersecção do desejo humano de celebração da beleza e da necessidade indelével de liberdade e autonomia.

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