As guerreiras Ahosi do Reino de Daomé

(Representação visual gerada pela IA Midjourney)

Nos idos do século 17, no Reino de Daomé teve início a formação de um grupo diferenciado de especialistas em combate: as mulheres Ahosi (“Esposas do Rei”) ou Mino (“Nossas Mães”. Especula-se que condições favoreceram a constituição deste grupo de combatentes, pois o reino enfrentava problemas com a perda de homens para a escravidão e foi também adotada a prática de segurança que impedia o acesso de outros homens nas dependências palacianas dos reis, então pareceu prático que entre as mulheres do soberano seria possível designar algumas para o desempenho de funções de segurança como uma guarda pessoal. Assim, mulheres passaram a receber uma preparação especial para manejo de armas e técnicas de luta, entrando em ação quando necessário.

As amazonas africanas chegaram a combater em guerra já no século 18, lutando contra os inimigos do Reino de Uidá na vitória de Daomé em 1727, fato que impulsionou a reputação das guerreiras Ahosi. Mas, apesar deste feito, foi durante o no reinado de Ghezo (de 1818 a 1858) com sua preocupação com o fortalecimento de suas formas militares que o regimento das mulheres guerreiras passou por uma reestruturação que ampliou a sua importância. O papel da atuação feminina entre o conjunto de militares deixou de ser restrito a atribuições de guarda-costas ou de uma força excepcional, passando a ser parte efetiva do exército, chegando a cerca de um terço do contingente.

As Ahosi cumpriam um rigoroso treinamento e se submetiam a uma rígida norma disciplinar, mas gozavam de prestígio social como guerreiras, condição que em particular atraía mulheres que jamais receberiam reconhecimento se não fossem guerreiras. Elas eram alojadas no palácio e contavam com tudo o que precisavam para se manter – inclusive escravos -, porém abdicavam do casamento porque eram tradicionalmente reconhecidas como esposas do rei e a maternidade era também uma possibilidade descartada, existindo entre elas muitas que conservaram a virgindade como prova de compromisso com a instituição. Fora da área reservada para elas, enquanto percorriam as ruas das cidades e passavam pelas aldeias, eram precedidas por uma escrava que portava um sino anunciando a proximidade das guerreiras, que eram reverenciadas respeitosamente pelas pessoas por um ritual que incluíam a desobstrução do caminho e o desvio do olhar masculino.

As subdivisões das Ahosi seguiam especialidades como as Gulohento que que portavam um rifle, espada curta e tinham habilidades na luta física, as Nyekplohento eram as temíveis “ceifadoras” que lutavam com suas lâminas no confronto direto, as Gohento eram as arqueiras e as Agbalya compunham a artilharia do exército de Daomé.   

Colocadas em ação em diversas ocasiões contra povos vizinhos e na captura e condução de escravos, as intimidantes combatentes femininas também lutaram contra os franceses, que a partir de 1890 intensificaram a presença e empregaram armamentos superiores em combate, sendo esta uma vantagem que ajudou a derrotar o Reino de Daomé e suas guerreiras tão famosas na região. Depois da submissão do reino aos franceses o regimento das Ahosi foi desmontado, mas a bravura das mulheres guerreiras não deixou de ser percebida sequer pelos colonizadores estrangeiros que dominaram suas terras.

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