Matthew Hopkins, o charlatão caçador de bruxas

(Representação visual gerada pela IA Leonardo)

Bruxas não eram tão preocupantes para os ingleses em comparação ao que ocorria em outros reinos europeus, então quando o rei Jaime I (que era Jaime IV na Escócia, reinos que estavam então unificados) finalmente fez com que bruxaria passasse a ser considerada crime mortal em 1603. O rei tinha grande interesse por ocultismo e até foi autor do livro Daemonologie, que tratava especialmente de bruxaria e virou referência entre outros estudiosos do tema. Desde então a causa contra as bruxas passou a contar com mais interesse e preocupação, sobretudo durante um período curto entre 1645 e 1646, quando os casos de acusações, torturas e condenações de mulheres por alegadas práticas de bruxaria tiveram um crescimento relevante. Diante deste surto de perseguições estava o comando de Matthew Hopkins, que virou um aniquilador de bruxas apoiado por uma mentalidade fanática e extremamente preconceituosa.

Hopkins, filho de um clérigo puritano, era um jovem advogado de pouca experiência e nenhuma expressão quando enveredou através da atuação contra a bruxaria. Sua fulminante carreira como acusador de bruxas depois de alegar ter ouvido um grupo de mulheres confessando seus relacionamentos com o próprio Diabo e ter sofrido um atentado praticado por pelo menos 6 delas em 644 e daí ele passou a estar determinado a combater todos os vínculos demoníacos representados pela bruxaria. O primeiro grupo de acusadas apontadas por ele em 1645 era constituído por 23 mulheres e todas morreram (4 na prisão e 19 por enforcamento), sendo um promissor início de carreira para um caçador de bruxas. Na ocasião a administração dos julgamentos não eram conduzidas por juízes regulares, pois o país passava por uma complexa guerra civil (parte do processo da Revolução Inglesa) que desestabilizou o funcionamento normal das instituições e essa circunstância favoreceu o trabalho dos caçadores de bruxas que recorriam a procedimentos arbitrários e acusações sem nexo ou provas que eram acolhidos por julgadores desqualificados e igualmente desobrigados dos mínimos resquícios da legalidade e princípios judiciais. Hopkins e sua equipe de acusadores realizaram uma expedição através de diversas cidades coletando casos e sendo remunerados por cada um deles, logo, quanto mais casos, mais dinheiro em seus bolsos.

A base “metodológica” utilizada por Hopkins para validar as acusações era inspirada no livro do rei Jaime I. Para obter “provas” contra quem acusava, ele usava uma faca cega para cortar as pessoas e como a lâmina não realizava corte a não ocorrência do ferimento e do consequente sangramento era alegada como evidência da presença demoníaca e isso era suficiente para sustentar a acusação e a condenação. Outro artifício enganador era a falsa picada realizada por um instrumento dotado de uma agulha retrátil que também não perfurava a azarada vítima da fraude acusatória. Marcas de nascença, verrugas e alguma anomalia física também entravam na lista de evidências de bruxaria. Torturas variadas complementavam seus procedimentos para obter confissões fraudulentas.    

Os crescentes honorários pagos a Hopkins e seu “escritório” e o alarmante número das mais de 300 mortes deixadas no rastro de suas andanças causaram estranheza. Clérigos e autoridades públicas começaram a questionar sua atuação, métodos e a legalidade dos processos que conduziu e assim que a regularidade do funcionamento dos tribunais foi restabelecida em 1647 Hopkins decidiu oportunamente se aposentar do serviço de caçador de bruxas.

Também em 1647 ele publicou sua obra Descoberta de Bruxas, um manual que indicava métodos para identificar as supostas malfeitoras a serviço do Demônio, mas não chegou a ver nem a repercussão de sua obra escrita nem qualquer efeito legal contra sua atuação arbitrária e corrupta, pois contraiu uma tuberculose fulminante e morreu no dia 27 de agosto, tendo entre 25 a 28 anos de idade (há registro disponível de sua exata data de nascimento). Seu livro teve sucesso entre outros fanáticos nas colônias britânicas na América, onde as “técnicas” de Hopkins tiveram adeptos que promoveram alucinadas caças a bruxas, a exemplo do famoso caso das Bruxas de Salem (1692-1693). A Inglaterra revogou a lei que condenava bruxas em 1736.

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