Jane Grey e seu reinado de apenas 9 dias

(Representação visual gerada pelas IAs Midjourney+Leonardo)

A nobre Lady Jane Gray (1537-1554) era descendente da realeza da Inglaterra, bisneta do rei Henrique VII e sobrinha-neta de Henrique VIII. A moça recebeu uma sofisticada formação para uma vida luxuosa nos meios elitizados, além de ter recebido uma orientação religiosa que fazia dela uma firme cristã protestante, no rastro das reformas iniciadas no reinado de Henrique VIII. Era letrada no grego e latim e fluente em francês e italiano, destinada a uma vida suntuosa na corte ou em alguma propriedade nobiliárquica casada com um proeminente nome da elite, mas acabou virando uma rainha que teve um reinado muito curto e um fim trágico.

Aos 9 anos de idade, Jane Gray passou aos cuidados de Catherine Parr, sexta e última esposa de Henrique VIII. Com os complicados casamentos entre a nobreza, a rainha viúva se casou com Thomas Seymour, irmão da falecida rainha Jane Seymour, que foi a terceira esposa de Henrique VIII e morreu de complicações pós-parto, quando deu à luz a Eduardo VI, que assumiu o trono como sucesso do pai. A permanência da jovem com o casal não durou muito, pois Catherine Parr morreu no ano seguinte também em decorrência de complicações pós-parto e pouco depois Thomas Seymour foi preso e executado após de se ver associado em mais uma das constantes tramas pelo poder em torno do trono. Jane voltou aos cuidados do pai, o Duque de Suffok, que se encarregou de negociar casamentos arranjados para as suas três filhas, cabendo a Jane uma união com Guildford Dudley, que era filho poderoso John Dudley, Duque de Northumberland, homem que exerceu o papel de regente da Inglaterra.  

O jovem rei não tinha muita expectativa de vida, pois sua saúde debilitada se agravava cada vez mais, então as circunstâncias da sucessão eram preocupantes. As irmãs de Eduardo VI chegaram a ser declaradas descartadas da eventual possibilidade de reinares, pois Maria era filha do primeiro casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão e Elizabeth era filha do segundo casamento com a infame Ana Bolena. Como os dois matrimônios de Henrique VIII foram decretados nulos, as duas princesas foram rebaixadas a uma condição de ilegítimas até que uma nova lei de sucessão admitida pelo próprio Henrique VIII em 1544 restaurou suas condições como herdeiras, mas por ocasião da inevitável morte de Eduardo VI uma manobra foi tentada para que Maria, a primeira na linha de sucessão, não viesse a assumir o trono.

Os interesses políticos acabaram articulando uma solução baseada numa manobra forçada a partir do testamento de Henrique VIII que designou como possibilidade sucessória a eventual ascensão ao trono dos herdeiros de sua irmã mais nova caso não existissem os seus próprios descendentes diretos, situação que colocava Jane no páreo como terceira na linha entre as herdeiras. John Dudley e seus partidário resolveram insistir na ilegitimidade de Maria e Elisabeth para coroar a agora Jane Gray Dudley, então fizeram o moribundo Eduardo VI assinar um testamento como seu último ato destinando o do trono a prima (e a família Dudley).

O rei morreu em 6 de julho de 1553 (uma semana após a oficialização do casamento entre Jane e Guildford Dudley), mas a manobra não deu certo. A própria Jane sequer sabia que seria rainha conforme a trama, mas a lei, o testamento de Henrique VIII, as divergências políticas e a pressão popular imediatamente se colocaram contra os planos do Duque de Northumberland, que correu para tentar coroar a nora na esperança de que esse ato funcionasse. Os opositores dos Dudley e o Parlamento foram rápidos e declararam apoio à Maria e o próprio pai de Jane manifestou ser contrário à coroação. Diante da situação, a tentativa de impedir o andamento da sucessão fracassou.

Maria I, coroada rainha, resolveu colocar em ação sua disposição de punir quem sabotar sua coroação. Foi instituído um processo para apurar os fatos conspiratórios e Jane certamente foi uma das pessoas implicadas. Ao final dos julgamentos pela manobra política e por outros planos contra Maria I, diversas pessoas foram condenadas. Entre o anúncio da morte de Eduardo VI e o reconhecimento de Maria como rainha legítima, Jane reinou por apenas 9 dias, tempo suficiente para criar evidências que foram utilizadas contra ela no processo no qual foi acusada de traição e conspiração. Conforme a tradição inglesa, mulheres condenadas por traição deveriam ser executadas na fogueira, mas uma conceção especial foi feita para que Jane fosse decapitada como outros condenados no mesmo processo.

Lady Jane Gray ou Lady Jane Dudley teve o pescoço cortado em 12 de fevereiro de 1554, mesmo dia em que seu marido também foi executado. Ela tinha 17 anos de idade na ocasião.

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