Morena, a deusa da morte e do inverno

(Representação visual gerada pela IA Midjourney)

Por razões óbvias as divindades associadas à morte não costumavam sem muito bem-amadas pelas populações antigas. Se o encontro com tais figuras era inevitável, melhor deixar o culto para quem já tinha certo gosto por rituais e invocações mórbidas ou para quem estava de encontro marcado do outro lado com elas. No leste da Europa a morte era o domínio de uma deusa que foi renegada pelos seus pares porque seu coração frio contrastava com sua beleza, então ela não era também amada no plano divino. Mas por ser fria e indiferente, a bela divindade não quis saber de tentar ser simpática e desistiu até de conviver com deuses muito mais amáveis que ele, então resolveu fazer aquilo que nenhum mais aceitou: ser a recolhedora das almas dos mortos. Também há tradições que dizem que ela foi queimada e expulsa da seara divina por ter tentado envenenar Dazbog, o deu solar, depois de não conseguir seduzi-lo.

Seu nome é Morena ou também Marena, Mara, Maržena, Morana, Mora ou Marmora, dependendo da região, e ela assumiu a coroa de Nav, o reino dos mortos, regido pelo temido Czernobog. Seu período do ano preferido (e temido pelos viventes) era o inverno, época em que sua fria presença também era mais sentida na Terra, pois não existiam colheitas, o ambiente era inóspito e as pessoas estavam mais tristes e isoladas. A deusa da morte e do inverno era a responsável pelas avalanches e arruinava plantações inteiras pela geada, além de também estar associada às bruxas, suas servas. Ela tinha a habilidade de mudar sua aparência, por isso para alguns ela poderia ser parecida com a horripilante Baba Yaga e ter aspecto monstruoso e animalesco, mas geralmente sua aparência era retratada como uma donzela bonita, embora fantasmagórica e pálida. Um ritual popular para “homenagear” a deusa mortífera é fazer um boneco de palha de vestido branco e queimar num ritual no fim do inverno, mas aparentemente a isso nunca a intimidou, pois Morena continuava cumprindo seu hábito de sentar-se sobre a vítima e então carregar a alma embora.

O velho paganismo eslavo foi substituído pelo cristianismo, embora ainda hoje ocorra em determinadas regiões do Leste Europeu o costume de celebrar o fim do inverno e chegada da primavera com o ato de “sacrificar” festivamente uma figura simbólica da deusa do frio, que também representa o próprio ciclo da existência.  

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