Radu III: O irmão traidor e esquecido de Drácula

(Representação visual gerada pela IA Leonardo)

Quando eram ainda muito jovens os príncipes Vlad III e Radu III da Valáquia foram entregues sob ameaças como reféns do sultão otomano Murad II em prova de fidelidade por parte do pai, Vlad II Dracul, que governou submisso ao poderoso império islâmico. Ceder os sucessores ao inimigo era uma garantia de que não se aliaria a qualquer resistência aos interesses otomanos no sudeste da Europa e fazia parte do acordo que os príncipes-reféns seriam protegidos, teriam acesso a conforto, opulência e boa instrução. Mas os dois irmãos acabaram seguindo rumos diferentes.

O mais velho, Vlad III, queria voltar para sua terra natal como sucessor e vingador do pai, enfrentando o império que dominou a Vláquia. Por sua vez, Radu III se habituou aos costumes otomanos e foi convertido ao islamismo, virando membro da corte do império que o tomou como refém e provável amante do príncipe e novo sultão Mehmed II.

Quando Vlad III Drácula foi coroado, em 1456, Mehmed II achou que poderia contar com sua obediência, mas o sujeito que gostava de mandar empalar pilhas de inimigos e inspirou as histórias macabras de que era bebedor de sangue não constituiu uma reputação tão extrema por ser submisso. A rebeldia de Drácula tornou Radu III, também conhecido como Radu “cel Frumos” (“o Belo”), uma opção muito mais conveniente para os interesses otomanos. Mehmed II e Radu III resolveram invadir a Valáquia, mas a estratégia defensiva implementada por Drácula atraiu os invasores para uma armadilha e promoveu uma carnificina que fez os inimigos fugirem espantados. Depois de sofrer derrotas seguidas, Radu III buscou alianças entre outros inimigos e vítimas da política expansionista violenta do irmão e sua sorte passou a mudar com este reforço. Drácula não conseguia aliados e no final de sua tentativa de obter ajuda contra os otomanos e a facção liderada pelo próprio irmão acabou sendo enganado e preso pelo ex-aliado húngaro Matthias Corvinus. Vlad III Drácula morreu (ou virou vampiro?) em 1477, mais uma vez lutando pela reconquista da Valáquia.

Com o apoio otomano e diante das promessas feitas aos aliados europeus, Radu III foi coroado como governante da Valáquia aos 26 anos de idade. Radu, o Belo, era visto como traidor por muitos de seus súditos e a força que o sustentava no trono não era a legitimidade e sim a aliança otomana, mesmo assim ele sofreu várias tentativas e ainda alguns exitosos golpes ao longo de seu tumultuado governo. Perdeu o trono algumas vezes e voltava ao poder graças aos otomanos, mas acabou sendo deposto em 1471 por Estêvão III da Moldávia, rei rebelde e inimigo dos otomanos (foi a terceira vez que ele destronou Radu III). Os otomanos voltaram a interferir diplomaticamente e conseguiam restaurar brevemente o governo teimoso do Belo mais duas vezes em 1473 e em 1475.  

O relacionamento entre Radu III e Mehmed II, o Conquistador, pode não ter passado de mais um dos vários casos do sultão que ainda tentou, enquanto se ocupava de seu poder, deixar o seu ex-amante ao menos confortável sobre um trono. Mehmed II consagrou-se conquistando Constantinopla, episódio que foi utilizado como marco histórico que separou a Modernidade da Idade Média. Estevão III fez fama por ser quase invencível, casou-se posteriormente com Doamna Maria Voichiţa, a única filha daquele que destronou já como rotina, e ainda foi canonizado santo pela Igreja Católica Ortodoxa. Se o irmão mais velho de Radu III não virou imortal como vampiro, foi imortalizado através do personagem que se originou dele. O Belo morreu sem trono, sem exército e sem Mehmed II em 1475 após a enésima deposição. Ele tinha 35 anos de idade.

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