A incrível Civilização Mesopotâmica tem um importante repertório de pioneirismo e inovações que marcaram definitivamente a humanidade. Os mesopotâmicos desenvolveram métodos e recursos para revolucionar a produção agrícola, elaboraram sistemas numéricos complexos que eram aplicados em diversas atividades, possuíam avançados conhecimentos sobre o mundo natural, produziram a escrita mais antiga conhecida e através dessa criação ampliaram ainda mais a capacidade de consolidar uma civilização sofisticada.
Quando o rei Sargão, o Grande, conseguiu dominar as antigas cidades-estado sumérias, por volta de 4.300 anos atrás, a região mesopotâmica já tinha uma longínqua tradição escrita e uma significativa produção de material que continha os mais diversificados registros documentais feitos com os pictogramas cuneiformes em superfícies de argila, a exemplo de potes ou de tabuletas especialmente produzidas para marcar informações relevantes ou cotidianas. Então, muitos textos já eram produzidos pelos mesopotâmicos a respeito de variados temas e propósitos, porém na região também surgiu mais uma novidade na produção de material escrito: o texto assinado e com sua autoria devidamente definida.
Entre os primeiros autores já identificados, o destaque do pioneirismo cabe à filha de Sargão, a princesa Enheduana. A primeira autora conhecida em toda a história da escrita era também sacerdotisa do deus lunar mesopotâmico, conhecido na Suméria por Nanna ou por Sim na Acádia. Coube ainda a Enheduana promover o sincretismo entre as variações das crenças dos diferentes povos mesopotâmicos para proporcionar um ensinamento que fosse aceito por toda parte no império que seu pai estava iniciando com a unificação de populações e terras na região.
Numa sociedade teocrática, o papel dos sacerdotes era muito importante e conferia um enorme poder para quem exercia os misteriosos atributos de intermediários entre os homens e as divindades, sendo assim, Enheduana era uma figura de elevado destaque social entre seu povo. Em textos autorais ela costumava referir a si em primeira pessoa e sua produção escrita contém cânticos poéticos para os deuses, ensinamentos teológicos, orientações ritualísticas e registros do cotidiano, produção que qualifica a autora como teóloga, literata, filófosa e pessoa importante na condução do império em seu papel de organizar a prática religiosa dos súditos e fiéis além de organizar um conjunto significativo de templos sob suas prescrições como líder.
A produção escrita de Enheduana sugere possibilidades a respeito da alfabetização das mulheres mesopotâmicas, o que também é reforçado pela importância da figura da deusa Nidaba, representada como uma escriba patrona da escrita, da educação e da astrologia. Diante disso, não chega a ser surpreendente que a primeira pessoa a ser reconhecida como autora de uma produção escrita seja realmente uma mulher da Mesopotâmia.


