O sádico Marquês de Sade

(Representação visual gerada pela IA Midjourney)

Costuma-se definir sadismo como uma perversão que proporciona prazer por meio do sofrimento alheio. A etimologia do termo é devida à figura do nobre francês Donatien-Alphonse-François de Sade (1740-1814), o Marquês de Sade, que fez de suas práticas sexuais e escritos referências para definir o comportamento de quem extrai satisfação da dor de outra pessoa. Filho de uma proeminente família do círculo dos poderosos da França, o jovem Donatien-Alphonse-François começou cedo a demonstrar um comportamento inadequado. Era um menino briguento que agredia outras crianças quando brincava em meio aos filhos da alta nobreza, situação que constrangia seus pais ao ponto de despacharem o pequeno delinquente para estudar sob a supervisão de um tio e depois em prestigiosas instituições educacionais de elite até ingressar na academia militar, de onde saiu como oficial já em atuação na Guerra dos Sete Anos (1756-1763), conflito que mobilizou potências europeias pelo controle colonial.

Seguir adiante na vida militar não era o plano de Donatien-Alphonse-François, que abandonou a farda logo após a guerra e se casou com Renee-Pelagie de Montreuil, filha de um burguês ricaço que conheceu apenas dois dias antes do casamento arranjado. O casal foi morar em Paris e na cidade começou a vida paralela do homem, que arranjou um apartamento secreto que virou o covil onde iniciou suas práticas escandalosas. Ele era frequentador assíduo dos prostíbulos parisienses, mas conseguiu ser reconhecido como um péssimo cliente enquanto os estabelecimentos já alertavam sobre os maus-tratos que ele realizava ao ofender, torturar e adotar estranhas práticas com as prostitutas que relatavam os momentos desagradáveis que passaram em sua companhia.

O dinheiro e prestígio da família eram utilizados para abafar a repercussão negativa dos abusos, pois a reputação dos Sade não poderia ser afetada pelas perversões de seu filho, então costumavam pagar pelo silêncio das vítimas e testemunhas, além de subornos a autoridades para que ele fosse sempre solto quando era detido, mas a má conduta do nobre chegou ao ponto de virar assunto na corte do rei Luís XV. Em 1768, depois de mais uma ofensa grave envolvendo tortura, sodomia e blasfêmias, o monarca decidiu afastar o nobre do convívio social e determinou seu exílio em uma das propriedades da família Sade, o Château Lacoste.

O exílio não limitou os impulsos pervertidos e violentos de Donatien-Alphonse-François, pois em seu castelo ele encontrou ainda mais condições para seguir praticando atos que escandalizavam. Novos incidentes de sodomia renderam mais condenações em 1772 e o Marquês chegou a fugir para a Itália com seu cúmplice e criado para evitar cumprir a sentença de morte que lhe foi imposta, sendo capturados para realizarem em seguida nova fuga. Foragido da Justiça, ele acabou voltando escondido para Lacoste e a essas alturas sua esposa virou cúmplice e ajudou a fazer da propriedade um antro oculto de agonia para a satisfação do Marquês. Em 1776 ela chegou a ajudar a atrair e aprisionar no castelo cinco mulheres e um homem que foram mantidos como reféns durante seis semanas ao logo das quais sofreram abusos enquanto estavam sob efeito de substâncias. O escândalo mobilizou a comunidade e mais uma vez, depois de escapar de um atentado por parte do pai de uma vítima e de fugir de Lacoste, o nobre pervertido foi preso em 1777 durante uma emboscada em Paris e depois trancafiado na masmorra do castelo de Vincennes, tendo conseguido por apelação judicial reverter em prisão a sentença de morte anteriormente definida.

O detento Donatien-Alphonse-François não era disciplinado. Envolvia-se frequentemente em brigas e incitava outros presos para que realizassem rebeliões até ser transferido para a infame Bastilha. O tédio da prisão era preenchido pela produção de escritos nos quais narrava suas aventuras sexuais depravadas e também sobre suas impressões contrárias à religião e diversos aspectos da vida social. Por ocasião da eclosão da Revolução Francesa e fechamento da Bastilha como símbolo do poder absolutista da monarquia, Sade foi transferido para um hospício e na instituição para insanos mentais ele continuou sua produção escrita, incluindo o romance Justine, obra que narra as desventuras de uma jovem vítima de abusos.

Em 1790 ocorreu sai liberação do hospício. O casamento já havia acabado (sua ex-esposa decidiu retirar-se para um convento enquanto ele era prisioneiro em Vincennes), ele não via mais seus filhos e foi renegado pela família. Tentou vivem como autor de teatro e até conseguiu uma ocupação durante o turbulento governo revolucionário até cair em desgraça e ser perseguido. Estava prestes a parar na guilhotina, condenação da qual escapou pela queda de Robespierre e dos radicais do Período do Terror. O nobre escandaloso agora vivia na pobreza e sequer conseguia vender sua obra, pois a censura proibia sua publicação. Foi preso mais uma vez em 1801 por causa da insistência em veicular seus textos proibidos, que eram editados clandestinamente. Tentou apelar para ter liberdade, mas o próprio Napoleão Bonaparte desejava que o incômodo depravado fosse silenciado e mantido isolado.

Sade morreu detido em 1814 e foi sepultado na própria instituição. Seu crânio foi desenterrado para ser submetido a estudos e seus muitos de seus registros libertinos foram perdidos porque seu filho decidiu queimar manuscritos inéditos que foram parar em sua posse. A obra literária do Marquês de Sade continuou proibida por muitos anos.

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