Sati, o ritual de sacrifício de viúvas mortas queimadas durante a cerimônia de cremação dos maridos

(Representação visual gerada pela IA Midjourney)

Uma forma extrema de submissão feminina por meio de regras sociais abusivas e violadoras pode ser exemplificada através da cerimônia de sacrifício mortal conhecida como Sati, que consistia no ato de fazer com que viúvas fossem levadas à morte queimando na pira funerária de seus maridos. O nome da prática é associado à Sati, divindade feminina hindu da felicidade conjugal que, segundo a tradição, se sacrificou por devoção amorosa.

Esta agressão inominável foi praticada na sociedade indiana durante séculos e era justificada como uma elevada demonstração de fidelidade da mulher ao homem que a possuiu em vida. Imagina-se que a prática teve início no século 5 a.C. com o sacrifício de esposas de guerreiros porque considerava-se que elas levariam uma vida desoladora , difícil e vulnerável diante dos inimigos na ausência dos homens com quem se casaram, sendo então preferível até mesmo a morte. As mulheres que começaram a aderir a este ato não eram forçadas a morrer queimadas e faziam por uma questionável deliberação de vontade própria, contudo, o sati passou a ser abordado como uma imposição em muitos casos com o passar do tempo e com a radicalização da expectativa de que a mulher devia a sua existência ao marido. Fatores externos como os constantes conflitos e ataques de inimigos estrangeiros também eram utilizados como argumentos em favor do sati, sobretudo por ocasião da intensificação das invasões islâmicas na Índia, quando eram reportados muitos casos de estupros das mulheres que perdiam seus maridos.   

Interpretações fundamentalistas de escritos sagrados do hinduísmo eram frequentemente empregadas para fundamentar o sacrifício de viúvas, justificativas acompanhadas de antigas condutas que também eram baseadas em prescrições religiosas, a exemplo da proibição do casamento de viúvas e da moralista prevenção de que uma mulher sem marido seria tentada aos atos de promiscuidade. Diante de condições como estas o sacrifício acabaria propiciando um processo de elevação santificada.

O sacrifício passou por forte contestação mesmo entre os próprios indianos, que contavam como opositores que também recorriam a argumentos religiosos para renegar o sati, uma vez que as escrituras hindus tratam o suicídio como ato proibido e condenável, contrastando com defensores da prática que não consideravam a morte de viúvas desta maneira como um mero suicídio. Durante o domínio mogol sobre a Índia (1526-1857) a prática chegou a ser condenada, embora segmentos contrários a esta dinastia de origem estrangeira e islâmica tenham aproveitado para reforçar a promoção das mortes ritualísticas das viúvas.

Um dos fatores que tornavam o sacrifício ainda mais extremo era o costume dos casamentos precoces de meninas, que frequentemente também eram forçadas a assumir a condição de esposas de homens muito mais velhos e de expectativa de vida já perigosamente ameaçadas pelas condições da idade. Entre as meninas das castas mais pobres era encorajado o matrimônio com homens velhos de status social superior, o que implicava na situação de acabarem sendo sacrificadas ainda jovens. Sob o domínio britânico crescente na Índia começaram também a ocorrer notificação dessas práticas e denúncia de evangelizadores, constatando o elevado índice de mortalidade de mulheres jovem por esta razão, o que alarmou as autoridades coloniais ao ponto de tornarem o sati terminantemente proibido em 1829.

A proibição não cessou totalmente a prática, mas fez reduzir drasticamente a ocorrência de morte feminina em rituais de sacrifício diante da viuvez. Ainda há casos isolados de viúvas recorrendo a esta extrema forma de suicídio religioso, porém as autoridades indianas também registram situações em que conseguiram agir para impedir novas vítimas do Sati.

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