Sínodo do Cadáver: O macabro julgamento dos restos mortais de um Papa

Representação visual gerada pela IA Leonardo

O julgamento póstumo do Papa Formosus, episódio também conhecido como o Sínodo do Cadáver, marcou um dos episódios mais sinistros e perturbadores da história da Igreja Católica. O evento ocorreu em janeiro de 897, na Basílica de San Giovanni Laterano, durante o papado do Papa Estêvão VI. O aspecto mais sinistro do julgamento foi o fato de que o réu já havia morrido há mais de um ano, mesmo assim seus restos foram colocados no tribunal para que os julgadores se dirigissem à caveira, que receberia o veredicto e a sentença final.

A caveira passivamente sentada no bando de réus era o que sobrou do Papa Formosus. O esqueleto foi parar naquela condição bizarra porque o sucessor daquele que usou os ossos quando vivo considerou que seu predecessor assumiu o pontificado ilegalmente. O ódio de Estêvão VI por Fomosus era tamanho que ele resolveu desenterrar seu rival para fazê-lo passar pelo vexame da humilhação de um julgamento absurdo.

Formosus era italiano nascido em Roma em 816 e teve uma influente carreira na Igreja, assumindo funções em diversas partes da Europa como enviado diplomático do papado. Durante o século IX, a Europa enfrentava um período de instabilidade política e lutas pelo poder. O papado não era exceção, sendo frequentemente influenciado por disputas e intrigas que envolviam interesses pelo poder da Igreja e pelo envolvimento direto de suas lideranças nos assuntos políticos mundanos. Formosus era um desses homens da Igreja bastante envolvidos nas tramas políticas e por isso mesmo bastante sujeito aos efeitos das crises e tensões próprias desse ambiente. Ele era apoiador de Arnulfo da Caríntia, um rei franco da dinastia imperial carolíngia, que aspirava assumir o trono como rei da Itália, posição que incomodava o Papa João VIII, que se opunha ao nobre e tinha receio de sua ascensão nos domínios italianos. Esta então estabelecida a divergência política entre o Papa e o então bispo Formosus. João VIII resolveu ameaçar de processos por corrupção e imoralidade os seus opositores, decidindo excomungar Formosus, que fugiu em busca de apoio político até que o Papa Marino I anulou a excomunhão. Durante o pontificado de Estêvão V ele ocupou seu posto como bispo do Porto até ser conduzido ao papado em 891.

Seu pontificado durou cinco anos, durante os quais ele enfrentou desafios políticos e instabilidades, como de costume nas experiências de então com praticamente todos os Papas. Ele manifestava clara preferência Arnulfo da Caríntia como pretendente ao trono italiano, fato que desagradava seu outrora aliado Guy III de Spoleto, que havia sido coroado. Depois da morte de Guy III, seu filho Lamberto foi consagrado regente do Sacro Imperador Romano, o que precipitou a guerra declarada por Arnulfo da Caríntia. Em decorrência do conflito, Formosus foi preso e brevemente deposto, mas Arnulfo conseguiu libertá-lo e, em retribuição, o Papa coroou seu aliado. Pouco depois o velho Formosus morreu sob suspeita de envenenamento, deixando um cenário conflituoso para quem viesse a assumir o papado depois.

Depois do brevíssimo pontificado de Bonifácio VI (que passou só 15 dias no comando da Igreja, morto por suposto envenenamento), assumiu enfim Estêvão VI, que era apoiador da família Spoleto e que estava disposto a viabilizar a vontade de vingança de Lambert, que foi excomungado por Formosus e conseguiu derrotar Arnulfo da Caríntia. O rei exigiu a seu aliado papal que fosse realizado um julgamento do finado Formosus com o cadáver exumado presente e visível para humilhação pública e como Estêvão VI sabia quem mandava, resolveu ser obediente e promover a encenação macabra.

Desenterraram os restos cadavéricos de Formosus já carcomidos pela decomposição avançada de mais de um ano, vestiram o defunto esquelético apropriadamente para a ocasião e procederam um estranho ritual jurídico com acusadores gritando com uma caveira vestida de Papa. O julgamento teve a participação de bispos e cardeais (o que caracteriza como Sínodo, isto é, uma reunião deliberativa das altas lideranças da Igreja), além do Estêvão VI, de Lamberto de Spoleto e algumas outras autoridades. O cadáver foi submetido a um interrogatório que certamente não respondeu, mas teve direito a um advogado de defesa para compor a cena. Ao final o réu foi declarado culpado das acusações de corrupção das funções eclesiásticas e seu papado que já havia acabado pela morte foi anulado, assim como atos tomados por Formosus no exercício da função foram revogados. A pena foi o despojamento dos trajes papais, a amputação dos três dedos da caveira que foram usados para os gestos das consagrações e bênçãos e foi providenciado um novo sepultamento para o cadáver, agora vestido como mendigo e enterrado numa vala de indigente. Estêvão VI achou pouco, então ordenou que Formosus fosse desenterrado novamente para ter seus restos jogados no rio Tibre. Um desavisado pescador depois conseguiu “pescar” o saco com os remexidos ossos do Papa.

A repercussão de tudo isso não foi boa nem considerando os padrões de absurdos comuns na época. Uma rebelião tomou conta das ruas de Roma e o Papa que violava sepulturas foi detido por populares, preso e depois morto esganado na cela. Seu pontificado durou pouco mais de um ano. Como se uma maldição tomasse conta do papado, os sucessores do Formosus duraram pouco como senhores da Igreja. Romanus, anulou todas as ações de Estêvão VI, mas foi derrubado em menos de um ano e foi sucedido por Papa Teodoro II, que resgatou os restos de Formosus, mas só passou 20 dias como Pontífice e, enfim, em 898, João IX providenciou um honroso descanso final para o sofrido esqueleto de Formosus na Catedral de São Pedro, além de determinar a proibição para que futuros julgamentos como aquele voltassem a acontecer, seja de Papas ou de qualquer pessoa.

A tragédia do Sínodo do Cadáver, que foi denominado apropriadamente em latim como Synodus Horrenda, deixou uma marca duradoura na história da Igreja Católica. O episódio serve como um lembrete sombrio dos perigos do poder, da ambição desenfreada e da manipulação política, mesmo em uma instituição sagrada.

2 comentários

  1. […] Já imaginou um julgamento em que o réu é um cadáver? No Sínodo do Cadáver, o Papa Formosus foi exumado e julgado um ano após sua morte, em um macabro tribunal conduzido por seu sucessor, Papa Estêvão VI. Com acusações de corrupção e traição, Formosus foi submetido a uma surreal humilhação pública, resultando na mutilação de seus restos mortais. O evento marcou um dos momentos mais sombrios e bizarros da história da Igreja Católica. […]

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