O movimento abolicionista brasileiro criticava e denunciava a escravidão, mas defensores da perpetuação do extremo regime de exploração reagiam politicamente, persistiam com os abusos e veiculavam seus argumentos em favor do escravismo. O exemplo do posicionamento dos favoráveis à escravidão é este texto de um autor que preferiu o anonimato encoberto pelo pseudônimo O Anjo Gabriel, que publicou sua opinião na seção de correspondências da edição do Diário de Pernambuco de 17 de abril de 1837.
Snrs. Redactores.
O nosso mundo vai huma maravilha, e he bem certo que d’ora em ora Deos melhora. Quando com a nova ordem de couzas vi trabalhar-se para a diminuição dos braços no Brazil isto he, fallemos claro, para a prohibição de negros novos; confesso fiquei assustado, e contei que nosso bello paiz hia a pique.
Um destes dias, e não faz muito tempo estando deitado de papo para sima meditando sobre isto mesmo vi passar, (porque a minha casa fica na beira da estrada de minha moradia) bastante gente armada, cujo numero representava mais de mais de quarenta homens, e no meio destes alguns 200 colonos Africanos, pois assim os apilidou bum dos taes contuctores: disse-me outro que havião desembarcado para as partes do Engenho; e que tinhaõ vindo por conta, ou pertenciaõ a um homem tão manso e pacifico que assimilhava-se à hum cordeiro; disse mais que outra Embarcação havia desovado em outra praia; mas que muitas pessoas negaraõ comprar os colonos de quella Enbacação por já terem morrido secenta e tantos, talvez por virem muito apinhadas: então perguntei eu, pois vendem se esses colonos? Respondeo-me, que sim e tão caros, que assim mesmo impestados do mal triste, ninguém tirava hum menos de 300,000 400,00 reis; do contrario ficava sem ele, voltava com o basta no bastos… Entendi logo o verso; fiquei mais contente utente, cobrei animo, e com milhores esperança poque disia eu a mim mesmo: que seria dos Brazileiros se não fossem os escravos? Onde iriamos parar!! Cada hum que conta com o trabalho de seus dous escravos tem seu meio de vida, e está no seu divino ócio: ora faltando isto morriamos de fome porque na verdade não fomos feitos nem criados para resistir-mos a trabalhos, e das fadigas em um clima taõ ardente, não obstante ser temperado, como dizem os Geografos. Demais quem faria a nossa população, que bem se vê ainda he muito pequena por cuja causa encontram-se tantos embaraços, e tropeços nas nossa instituições liberaes? Bem fez um meu compadre chamar tolo a Joze Bonifacio de Andrade quando vio e, seu folheto huma representação feita a Assembleia Constituinte com o fim de promover a progressiva emancipação dos escravos; e com mais embirrou aquelle meu Compadre, foi com taes termos de heterogenidade, homogeneo, compacto. Na verdade he bem pedante aquelle Snr. Legislador Andrada, pois de tudo quanto dice a respeito aquelle respeito naõ se pode obter um didal de bom sensu. Eu só quizera que elle me respondesse com quem ficariamos nos acabando se com a escravatura! Aconselhar-nos-ia talvez de fazer vir gente branca de fora para repartirmos com ella terrenos, matas, e formarse a população necessaria… Bem tolos seriamos nos para vermos ao depois o nosso territorio occupado por Estrangeiros, quando que os negros são cá de nossa terra. Alem disso, que proveito ou vantagens tirariamos?! De ficar-mos mais apertados, e diminuidas nossas propriedades. Meditemos agora sobre o bem real que no vem dos taes colonos Africanos, visto que não quererem que os chamemos nossos captivos. A primeira, e principal utilidade he a riqueza dos proprietarios Agricultores; a segunda dos negociantes; e a terceira emfim a da propriedade geral dos particulares. Vejamos porem como fazem esses colonos a riqueza dos primeiros. As produçõens da agricultura provenientes do augmento da força braçal, faz apparecer a abundancia do assucar, e algodão, e estes dous objectos de maior exportação posto que baixe o preço, segundo sua maior quantidade, todavia deixa um grande interesse, porque não só o Proprietario faz consintir sua riqueza no realce daquelles escravos, ai! Que errei o nome, daquelles collonos, como que sendo estes faceis de contentar, deles tiraõ utilidade: e a razaõ he que uma pequena ração de carne do Rio Grande do Sul applicada huma vez ao dia, (fallo dos Senhores d’Engenho) e huma cadisa d’algodaõ para as quatro festas do anno, isto he quando não tem o Domingo por seu; he sempre mui barato o que dispendeu em relaçaõ ao que lucrão; e que os colonos suatentão si mesmos com a prodigiosa fertilidade de gràos, e legumes, que produzem os nossos Certões, e catingas. Quanto para com os Negociantes naõ podia apparecer mina maior nem mais consideravel do q’ mandar vir colonos novos, vende-lo a 300,00 e a 400,000 reis tantos cheguem; passar letras a vencer com juros de dous e meio para seu pagamento, passar de pobre, a requi-simo, montar o cabo da Boa esperança, e tornar-se em pouco tempo de tratante, quero dizer pequeno traficante a Negociante de alta importancia, boa fé, e grandes creditos. E ultimamente os particulares os particulares não menos utilisão porque já se naõ achaõ na triste collisão de trabalharem com suas maõs pela falta de uma mercadoria taõ preciosa, e necessaria: e o mais he já se comprão alguns colonos mais baratos quando passão a segundas mãos sem dinheiro, com isso se naõ intenda que são furtados. Continuemos a dismascarar esses hypocritas, filantropos, que nos apelidam de traficantes de carne humana, e outros termos da moda. Aonde achou o Snr. politico Joze Bonifacio que os escravos conduzidos d’Africa, e seus filhos, e os filhos destes filhos eraõ desgraçados para todo o sempre por causa do perpetuo captiveiro? Não vio que em nossa população composta em grande parte dessa heterogeneidade não vive no captiveiro, e que goza de iguaes direitos, e Liberdade!! Si nos tempos em q’os Portuguezes, e alguns Brazileiros, prezando pouco a honra, dexavão seus filhos contraidos das donzelinhas Africanas jazerem na escravidão, o mesmo não acontece hoje, em que as ideias mais exageradas a cerca dos deveres sociaes, tal não consistem; e mormente porque sendo os Brazileiros Senhores, e possuidores do terreno em que habitão, e os primeiros deflorados; isto he desfrutadores do bello sexo Africano, nenhuma duvida resta, que seus filhos deverão ser forros, e Cidadãos livres: ora temos alem disso, que com essa affluencia de novos colonos Africanos, que se e tão espalhados pelo territorio do Brasil em bem pouco tempo teremos huma população prodigiosa, ilustrada e laboriosa. Seus filhos serão mais bem educados, activos, e industriosos, pacificos, e honesto: teremos sabios Legisladores, prudentes juris-consultos, excellentes oradores, boas Leis, e bom Governo. As nossas classes já não estarão tão confundidas e misturadas; faremos um todo compacto escuro, e então gosaremos verdadeira ventura e prosperidade. Que mal! Que Mal! Snrs. Redactores se nos tirassem os escravos!! A quem confiaremos nosso filhos? Como não ficarião tristes, e descontentes nossos pequenos privados de tantos molequinhos beiçudos, e engraçadinhos, e quazi sempre remelozos, com que brincão, divertem e aprendem bellos costumes, e maneiras? E que seria das bellas Jaiàs da Bahia quando se apresentassem sosinhas nas janelas sem huma figa preta no meio, que de ordinario eh sempre uma negrinha com os dentes bem alvos, beicinhos bem roxos e nariz quanto mais xato!! Emfim, não fallemos nisso: a cabava-se a sublime lingoagem de Congo, Moçambique, Rebollo, Cassanje, Banguella, e outros muitos termos proprios, e originaes de diversos lugares de Africa que ja tantos Senhores d’Egenhos sabem de cór, e argumentado de seus malungos Oh! que desgraça! Tornamos nos meros Europeos. Mas a providencia vella em nosso favor, e assim como o povo remediou o chanchan, posto ficassemos com papel assim tambem os grandes, e a boa fé de nossos Negoiantes remediarão o grande mal da prohibição dos escravos, porem não sei o que se nos substituirá! Finalmente tudo vai bem, e so o que me está zangando são tantos tributos, e impostos, porque sou um matuto, que trabalho para sustentar minha familia com o suor de meu rosto, e ja n’uma idade avançada. Desejei, por me dar alguma distração pedir de infferir em seu Diario estas toscas linhas com o que muito obrigará ao mais attencioso criado, e obrigado.
O Anjo Gabriel


[…] Uma defesa da escravidão […]