Archive for the ‘Para professores’ Category

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A Sociedade no formigueiro – Edward O. Wilson

março 11, 2013

Considerado o maior biólogo vivo, Edward O. Wilson, criador da sociobiologia, explica porque os homens possuem instinto natural para viver em grupo.

Edward O. Wilson, da Universidade de Harvard

Formar grupos, extraindo conforto visceral e orgulho da associação familiar, e defender o grupo com entusiasmo contra grupos rivais — esses comportamentos estão entre os universais absolutos da natureza humana e, portanto, da cultura. Uma vez criado um grupo com um propósito definido, porém, suas fronteiras são maleáveis. Famílias costumam ser incluídas como subgrupos, embora se dividam com frequência pela fidelidade a outros grupos. O mesmo ocorre com aliados, recrutados, convertidos, membros honorários e traidores de grupos rivais que mudaram de lado. Uma identidade e certo grau de poder são concedidos a cada membro do grupo. Em retorno, qualquer prestigio e riqueza que este possa adquirir concedem identidade e poder a seus colegas.

Os grupos modernos são psicologicamente equivalentes às tribos da história antiga e da Pré-História. Como tais, descendem diretamente dos bandos de pré-humanos primitivos. O instinto que os mantém coesos é o produto biológico da seleção de grupo.

As pessoas precisam de uma tribo. Ela proporciona um nome, além de um sentido próprio e social num mundo caótico. Torna o ambiente menos desorientador e perigoso. O mundo social de cada ser humano moderno não é uma tribo única, e sim um sistema de tribos entrelaçadas, em meio às quais costuma ser difícil encontrar uma só bússola. As pessoas saboreiam a convivência com amigos afins e anseiam por estar com as melhores companhias: um regimento de fuzileiros navais, talvez, uma faculdade de elite, um comitê executivo de uma empresa, uma seita religiosa, uma república estudantil, um clube campestre, em suma, qualquer coletividade que possa levar a melhor na comparação com grupos concorrentes da mesma categoria.

Atualmente, as pessoas ao redor do mundo, cautelosas em relação às guerras e temendo suas consequências, têm se voltado cada vez mais para seu equivalente moral nos times esportivos.

Sua ânsia pela participação num grupo e pela superioridade dele pode ser satisfeita com a vitória de seus guerreiros nos embates em campos de batalha ritualizados. Como os cidadãos animados e bem-vestidos de Washington, que vieram testemunhar a Primeira Batalha de Bull Run durante a Guerra Civil, eles anteveem a experiência com prazer. Os torcedores ficam empolgados vendo os uniformes, símbolos e apetrechos de batalha de seu time, as taças de campeonatos e bandeiras, as garotas de torcida dançando em trajes sumários. Alguns dos torcedores trajam fantasias estranhas e pintam o rosto em homenagem a seu time, participam de comemorações após as vitórias. Muitos, especialmente os mais jovens, libertam-se de qualquer censura para aderir ao espírito de batalha e ao alegre caos que se segue a ela. Quando os Boston Celtics derrotaram os Los Angeles Lakers no campeonato da Associação Nacional de Basquete dos Estados Unidos, numa noite de junho de 1984, o time estava em êxtase, e seu grito de guerra foi: “Celts Supremos!”. O psicólogo social Roger Brown, que testemunhou as comemorações posteriores, comentou:

Não foram apenas os jogadores que se sentiram supremos, mas todos os seus torcedores. O North End ficou empolgado. Os torcedores irromperam do Madison Square Garden e dos bares próximos, dançando o break no ar, charutos acesos, braços elevados, vozes gritando. A capota de um carro foi abaixada, umas 30 pessoas alegremente se empilharam a bordo, e o motorista — um torcedor — sorriu feliz. Uma carreata circulou buzinando pelos arredores. Não me pareceu que aqueles torcedores estivessem apenas expressando simpatia ou empatia por seu time. Pessoalmente estavam nas nuvens. Naquela noite, a autoestima de cada torcedor foi suprema. Uma identidade social fez um grande bem a várias identidades pessoais.

Brown então acrescentou um detalhe importante:

A identificação com um time esportivo tem em si algo da arbitrariedade dos grupos mínimos. Para ser um torcedor dos Celtics, você não precisa ter nascido em Boston, nem mesmo morar lá, e o mesmo acontece com os membros do time. Como indivíduos, ou diante de membros de outros grupos, tanto os torcedores como os jogadores poderiam ser bem hostis. Mas, como participantes dos Celtics, todos comemoraram juntos.

Experimentos conduzidos durante vários anos por psicólogos sociais revelaram a rapidez e a decisão com que as pessoas se dividem em grupos e depois discriminam a favor do grupo a que pertencem. Mesmo quando os pesquisadores criaram os grupos arbitrariamente e depois os rotularam para que os membros pudessem se identificar, e mesmo quando as interações prescritas foram triviais, o preconceito logo dominou. Quer os grupos jogassem por alguns trocados ou se identificassem de forma grupai, como preferindo certo pintor abstrato em relação a outro, os participantes sempre classificavam os de fora do grupo como inferiores aos membros do grupo. Julgavam seus “oponentes” menos agradáveis, menos justos, menos confiáveis, menos competentes. Os preconceitos se manifestavam mesmo quando as cobaias eram informadas de que os membros do grupo e os forasteiros tinham sido escolhidos arbitrariamente. Numa dessas séries de testes, pediu-se que as cobaias dividissem pilhas de fichas de jogo entre membros anônimos dos dois grupos, e a mesma reação aconteceu. Um forte favoritismo se manifestou sistematicamente em relação àqueles rotulados simplesmente como membros do grupo, mesmo sem nenhum outro incentivo e nenhum contato anterior.

Em seu poder e universalidade, a tendência a formar grupos e depois favorecer seus membros tem a marca do instinto. Seria possível alegar que o viés a favor do grupo é condicionado pelo aprendizado prematuro de se associar aos membros da família e pelo incentivo a brincar com as crianças da vizinhança. Mas, mesmo que tal experiência desempenhe um papel, seria um exemplo do que os psicólogos denominam aprendizado preparado, a propensão inata a aprender algo de forma rápida e decisiva. Se a propensão ao viés a favor do grupo satisfaz todos esses critérios, é provável que seja herdada e, nesse caso, é de supor que tenha surgido por meio da evolução por seleção natural. Outros exemplos convincentes de aprendizado preparado no repertório humano incluem a linguagem, a rejeição ao incesto e a aquisição de fobias.

Se o comportamento pró-grupo for de fato um instinto expresso pelo aprendizado preparado e herdado, deveríamos encontrar seus sinais mesmo em crianças muito novas. E exatamente esse fenômeno foi descoberto por psicólogos cognitivos. Bebês recém-nascidos são mais sensíveis aos primeiros sons que ouvem, ao rosto da mãe e aos sons de sua língua nativa. Mais tarde, dão preferência às pessoas que ouviram antes de falar sua língua nativa. As crianças em idade pré-escolar tendem a selecionar como amigos falantes de sua língua nativa. As preferências começam antes que compreendam o significado da fala e se manifestam mesmo quando diferentes sotaques são plenamente entendidos.

O impulso elementar de participar com profundo prazer de grupos se traduz facilmente, num nível mais alto, em tribalismo. As pessoas tendem ao etnocentrismo. Constitui um fato incômodo que, mesmo quando podem escolher sem culpa, os indivíduos preferem a companhia de outros da mesma raça, nação, clã e religião. Confiam mais neles, relaxam mais com eles nos negócios e eventos sociais, e é comum que os prefiram como parceiros de casamento. Ficam com raiva mais rapidamente quando descobrem que alguém de fora do grupo está se comportando injustamente ou recebendo recompensas indevidas. E mostram-se hostis com qualquer forasteiro que invada o território ou recursos de seu grupo. A literatura e a história estão repletas de relatos do que acontece nos casos extremos, como na seguinte passagem de Juízes 12:5-6, do Antigo Testamento:

E tomaram os gileaditas aos efraimitas os vaus do Jordão. E, quando algum dos fugitivos de Efraim dizia: “Deixai-me passar”,  então os homens de Gileade lhe perguntavam: “És tu efraimita?”. E dizendo ele: “Não” então lhe diziam: “Dize, pois, Chibolete”: Porém ele dizia: “Sibolete”, porque não o podia pronunciar bem. Então o agarravam e degolavam nos vaus do Jordão. Caíram de Efraim naquele tempo 42 mil.

Quando, em experimentos, americanos negros e brancos viram de relance fotos da outra raça, suas amígdalas, o centro cerebral do medo e da raiva, foram ativadas de forma tão rápida e sutil que os centros conscientes do cérebro não perceberam a reação. A cobaia, na verdade, não conseguiu se controlar. Quando, por outro lado, contextos apropriados foram acrescentados digamos, o negro que se aproximava era um médico; e o branco, seu paciente —, dois outros locais do cérebro integrados com os centros de aprendizado superior, o córtex cingulado e o córtex preferencial dorsolateral, entraram em ação, silenciando os estímulos por meio da amígdala.

Desse modo, diferentes partes do cérebro evoluíram por seleção de grupo e criaram o sentimento de grupo. Elas mediam a propensão estrutural inata a subestimar membros de outros grupos ou se opunham a ela para dominar seus efeitos autônomos imediatos. Existe pouca ou nenhuma culpa no prazer quando se assiste a eventos esportivos violentos ou a filmes de guerra, desde que a amígdala governe a ação e a história se desenrole até a destruição satisfatória do inimigo.

Texto extraído do livro “A c0nquista social da Terra” (Companhia das Letras)

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Infográfico em vídeo – Veja como foi a imigração para os EUA em números

novembro 10, 2012
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Para lembrar de não esquecer: Com a progressiva transição da materialidade para o virtual, como leremos a sociedade contemporânea a partir do material que produzimos hoje?

outubro 18, 2012

Nos tempos digitais nossos rastros são virtuais, suscetíveis ao puro e simples desaparecimento sem deixar pistas ou memórias. Isso certamente será um desafio para os historiadores do futuro, que precisarão vasculhar por restos de bytes ou por mídias digitais obsoletas e sem uso. Esse problema me veio fortemente à mente após a leitura de um ótimo texto do suplemento dominical Aurora, que o Diario de Pernambuco publica. O texto impresso foi então digitalizado para ser replicado aqui, o que é uma comprovação daquilo que ele aborda.

Para lembrar de não esquecer: Com a progressiva transição da materialidade para o virtual, como leremos a sociedade contemporânea a partir do material que produzimos hoje?

Felipe Fernandes – Para o suplemento Aurora, do Diario de Pernambuco de 14 de outubro de 2012

As fitas cassetes estão fora da caixa de origem: distribuídas em pilhas de tamanhos semelhantes sobre o piso de tacos. No dia anterior, Sarnarone Lima, 43 anos, escutava algumas delas naquele mesmo quarto. Uma amiga de sua mulher acabara de lhe devolver o aparelho de som, um gravador antigo. Ele nem se lembrava mais do empréstimo, achava que tinha perdido. Aproveitou o reencontro inesperado para ouvir os arquivos. São mais de cem entrevistas gravadas para o trabalho de conclusão de curso na universidade, que acabou originando seu primeiro livro, Zé (Editora Mazza, 1998).

Diante da quantidade de objetos espalhados pelo quarto, as fitas não chamam a atenção. O escritor e jornalista conta que, mesmo quando arruma, o cômodo volta à desordem original em pouco tempo. Numa dobra da parede, guarda cadernos usados como diários em estantes de ferro. A quantidade de Volumes atinge á casa das centenas. Não lembra quando começou a escrevê-los. Sabe apenas que a cada caderno finalizado, começa outro .e guarda ó anterior.. AS vezes escolhe um e se debruça durante a tarde inteira, viajando na lembrança.

Se antes da popularização do computador memória humana podia ser representada por uma torre com salas de arquivos parecidas com o quarto de Samarone, hoje ela é medida em bytes. Vasculhando com os olhos o ambiente onde o jornalista guarda Seus cadernos, é possível registrar quatro máquinas de escrever e nenhum computador. “Sou da civilização do papel”, confirma. Isso não significa que ele não bote os pés no mundo digital. Simplesmente não gosta. Usa quando necessário. Para postar textos nos seus blogs (estuario.com.br e quemerospoemas.blogspot.com.br), por exemplo. Ou na hora de redigir um livro. “Se bem que agora estou escrevendo um livro à mão mesmo”.

Entre as principais críticas ao computador e afins, Samarone cita a imaterialidade do que é produzido (ele gosta do toque, de manusear seus escritos) e a insegurança quanto à preservação do material. “Tudo pode desaparecer muito facilmente. Basta um dique e as coisas deixam de existir”. Confia mais na palavra impressa, na fotografia revelada, na pasta de arquivo e nas prateleiras da estante. O pé atrás se justifica, diz Daniela Osvald, professora de novas tecnologias da comunicação na Faculdade Cásper Líbero: “A maior parte das informações circula hoje no meio digital, através da internet. Inclusive a comunicação interpessoal. E as pessoas esquecem que as máquinas são finitas e suas capacidades de armazenamento também”. Diante do tamanho da produção de dados proporcionada pela web, ela pergunta: “O quanto de máquina vai ser necessário para armazenar 50 anos de uso da internet?”.

A reflexão nos faz pensar na fragilidade dos arquivos virtuais e na possibilidade dessa fragilidade representar um problema para a futura análise histórica de nosso tempo. Daniela lembra, por exemplo, de quando a faculdade onde trabalha reformulou o próprio site. “Migramos de servidor e não havia como compatibilizar os arquivos antigos. Por conta disso, cerca de sete anos de produção dos alunos do curso de jornalismo foram perdidos”.

Diariamente, Samarone Lima lê mais de três jornais. Costuma recortar as matérias que estão ligadas às suas áreas de interesse, como a ditadura militar ou Cuba, temas de alguns de seus quatro livros. Antes, costumava guardar as matérias em pastas, separadas por ordem alfabética. Até que descobriu que colá-las nas páginas de um caderno é mais eficiente porque facilita a leitura. “E é mais prazeroso, passo horas recortando e colando”, confessa. Uma pilha de folhas pautadas com artigos colados se acumula ao pé da bancada. Só neste ano, já foram dois cadernos inteiros. Em contraste com a seriedade dos assuntos, as capas são coloridas e infantis: um grupo de porquinhos jogando futebol americano em um, um casal de crianças tocando instrumentos musicais no outro. “Acabei criando um grande arquivo sobre os temas que pesquiso. Quando preciso de qualquer coisa é só abrir os cadernos. Pode ser mais simples que pesquisar no Google”.

Como engavetar websites

Um estudo feito pela universidade norte- americana Old Dominion, da Virgínia, mostrou que um ano depois de sua primeira publicação na internet 11% dos links compartilhados no Twitter já não estão mais disponíveis. Depois desse período, a cada dia 0,02% dos sites desaparecem. Guiada pelos pesquisadores Hany Salah Eldeen e Michael Nelson, o levantamento analisou mais de onze mil links publicados no microblog sobre seis assuntos de grande repercussão nos últimos três anos. Chegou à conclusão de que 25% dos Sites postados em 2009 sobre a revolução no Egito, os protestos no Irã, o surto da gripe H1N1 e a morte de Michael Jackson, por exemplo, já estão fora do ar.

Desenvolvida pelo engenheiro de computação norte-americano Brewster Kahle, a biblioteca digital Internet Archive, com sede na Califórnia (EUA), tem arquivado websites desde 1996 com o intuito de promover “o acesso universal ao conhecimento”, como explicitam na própria homepage. A organização não governamental faz snapshots de sites do mundo inteiro, que ficam disponíveis para consulta através do serviço chamado de Wayback Machine. Armazena, ainda, imagens e livros digitais livres de direitos autorais. Instituições que desejam ter seus acervos preservados podem tornar-se parceiras da organização através do projeto Archive it, que armazena sites para empresas. Atualmente, o Internet Archive guarda 2 petabytes de dados, o que equivale a cerca de dois milhões e cem mil gigabytes. Para quem quiser criar seu próprio arquivo, existem softwares de leituras offline que podem armazenar o website no seu disco rígido, gerando um espelho do endereço desejado. A prática de armazenar páginas da internet, entretanto, é pouco difundida. “As pessoas acham que o que está na internet vai durar para sempre”, observa Daniela.

Compartilhar é viver – Ou recordar é hábito ultrapassado

Em caixas da última prateleira está escrito “Negativos”. Samarone Lima conta que eles foram contrabandeados da casa da família, em Fortaleza. Desde que os pais se separaram, os negativos ficaram esquecidos num quarto qualquer da casa da mãe. Aos poucos, ele foi trazendo os registros para seu apartamento. De tão desprezados, ninguém reclamou sua falta. “Essa é uma possibilidade que as mídias digitais não permitem: você encontrar num canto qualquer uma caixa com diversas imagens de sua família. Hoje tem até casais que se divorciam e deletam as fotos juntos”, comenta Samarone. Antes da câmera digital, ainda que houvessem fotografias queimadas ou rasgadas, sempre sobrava uma ou outra esquecida no fundo da gaveta. Com a alternativa de “enviar todos os arquivos para a lixeira”, fica difícil sobrar um.

“À medida que uma fotografia vai ganhando longevidade, ela vai se tornando documento”, explica Rubens Fernandes Junior, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Álvares Penteado. Sempre que possível, ele compra fotografias antigas (às vezes álbuns inteiros) de pessoas desconhecidas. Além de curador e crítico de fotografia, é pesquisador das relações humanas através da imagem. Seu diagnóstico sobre a maneira com que a sociedade contemporânea lida com a preservação de arquivos é preocupante. “Estamos caminhando para desconstrução da memória”, anuncia.

O maior problema, segundo ele, está no cerne da relação estabelecida com a imagem. “Não se fotografa mais para guardar, apenas pra compartilhar. Guardar implica em materialidade, durabilidade. Já compartilhar implica em algo efêmero: aparece e some num dique”. O importante não é preservar, mas colocar a imagem nas redes sociais. Os problemas, segundo Rubens, vão aparecer a longo e médio prazo. A compatibilidade de arquivos é uma das &meças dos acervos digitais. “Não vamos guardar e manter ativas traquitanas ultrapassadas apenas para garantir o acesso às imagens. O que nos garante, então, que os arquivos produzidos hoje serão compatíveis com as máquinas do futuro?”. Se pensarmos que a imagem é uma das principais bases de comunicação da sociedade contemporânea, o cenário fica ainda mais assustador. “É uma grande contradição. Vivemos numa-profusão de imagens. No entanto, basta acontecer um problema, um boom, e tudo se perde num instante”.

Minhas cartas, seus e-mails

John Lennon faria 72 anos na semana passada. Para marcar a data, o biógrafo oficial dos Beatles, Hunter Davies, idealizou As cartas de John Lennon (Planeta do Brasil, 2012), livro que apresenta uma compilação de todas as correspondências do ex-beatle. Sua relação com a família, com as mulheres, a intimidade do ídolo exposta em trocas de mensagens. Esse é um privilégio que passa longe dos fãs de artistas contemporâneos. “Primeiro a popularização do telefone já quebrou o registro dessa intimidade. Hoje, o e-mail e as redes sociais tornam ainda mais difícil a existência das cartas “íntimas”, diz Rubens Fernandes Junior. Na pequena caixa de madeira em cima da bancada, Samarone Lima guarda o que considera ser um de seus tesouros. Um carimbo para data, outro para o seu endereço e outro para classificar a correspondência. Até um dia desses ele costumava mandar cartas para os amigos. Geralmente, compartilhava artigos que lia e lembrava do destinatário. Até que desistiu dos Correios. “Ninguém me respondia com cartas. No máximo enviavam uma resposta por e-mail ou telefone”, reclama.

Ainda que fiquem registradas na internet, as mensagens trocadas por e-mail ou redes sociais estão sujeitas a uma senha — ao contrário das cartas, sempre disponíveis para aqueles que as encontrem. Por isso, sem acordo prévio, informações da conta pessoal são condicionadas à existência do autor. Em caso de morte, todo o conteúdo corre o risco de ficar inacessível — apesar de continuar ocupando espaço na web. Para evitar a perda do conteúdo, existem empresas especializadas em gerenciar a vida após a morte na web, que gravam as senhas das contas dos usuários e programam os destinos delas. As redes sociais também oferecem, cada uma a seu modo, opções para que o arquivo seja preservado. O Twitter, por exemplo, envia à família do morto uma cópia de todas as publicações dele — desde que o parentesco seja comprovado. “A partir da análise do que fomos conseguimos entender melhor quem somos. Por isso é importante manter os registros de intimidade, seja nas fotos ou nas mensagens”, explica Rubens.

A engenharia da memória

As informações presentes na rede estão sempre situadas num servidor. Vinícius Cardoso Garcia, coordenador da graduação em tecnologia da informação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica que os arquivos costumam ser replicados sete vezes para garantir um mínimo de segurança. Sendo assim, para cada giga disponível na rede, são necessários sete de espaço no servidor. “E cada réplica dessa é guardada num local diferente para garantir que ao menos uma esteja sempre preservada’:

Para o Internet Archive, por exemplo, são necessários 86 servidores. O projeto é subsidiado por parte das instituições cujos acervos são armazenados. “O armazenamento de dados é bastante caro. Além do custo da tecnologia envolvida, é preciso dar conta também do espaço para instalação desses servidores, que geralmente são bem grandes, e as despesas referentes a refrigeração das máquinas”, afirma Vinícius, que dá aulas de engenharia de software.

Para baratear custos, as empresas costumam construir datacentros em lugares frios, como na Finlândia. “O Google instalou um desses próximo a uma cachoeira justamente por isso”, aponta o professor. Na medida em que os usuários consomem apenas o espaço necessário à sua demanda, compartilhando servidores, a computação em nuvem também surge como uma alternativa para atenuar o preço do armazenamento de dados. “É o uso racional da tecnologia. E o bom é que você não precisa se preocupar onde estão os arquivos, só se são acessíveis”, atesta Vinícius.

Na casa de Samarone Lima, o material armazenado preenche o cômodo inteiro. Das fitas cassetes no chão, do lado dos cadernos sobre a ditadura, às caixas de negativos que tocam o teto em cima da última prateleira. “Não quero nem pensar como vai ser se eu tiver que me mudar daqui, algum dia”. As vezes ele não consegue encontrar um artigo ou página que procura. Mas não faz tanta diferença, ele gosta de procurar. “Eu gosto disso. Por isso não faço questão do mundo digital. Nada contra o computador, mas nada supera uma ida à papelaria”.

Há uns três anos, o jornalista recebeu uma proposta: Marcos Galindo, professor da graduação em Ciências da Informação da UFPE, digitalizou todas as fitas cassetes de Samarone com as entrevistas feitas na década de 1990. Graças ao projeto, as cem entrevistas sobre a ditadura, que serviram de base para o livro sobre o militante José Carlos Novais da Mata Machado sobreviveram. “Quando fui escuta- Ias agora, acabei descobrindo que boa parte está estragada”.

Marcos coordena o projeto de pesquisa Preservação da memória digital: um panorama brasileiro. E garante que a memória da sociedade contemporânea não está tão ameaçada quanto alardeiam. “A matriz do sistema de informação, seja ele digital ou não, é a redundância. Ou seja, a realização de cópias é que garante a segurança do sistema. Com os arquivos digitais a gente perde em durabilidade, mas ganha em plasticidade e, com isso, uma capacidade quase infinita de reprodução”.

O grande problema que o pesquisador enxerga está na maneira como lidamos com as informações. “As pessoas não imaginam que os arquivos são perecíveis. Ninguém zela com o mesmo cuidado um livro e um arquivo digital”. Essa falta de cuidado deve ser corrigida com o tempo. “Até aprendermos lidar com esse novo tipo de memória é provável que existam alguns lapsos na nossa história. Estamos vivendo um período de transição”.

O desenvolvimento tecnológico, revela Marcos, está nós levando em direção a um cenário muito mais complicado. A nanotecnologia, a computação quântica e a capacidade de armazenar dados em átomos de carbono, anunciam a complexidade do que vem por aí. “Os problemas que a gente vive hoje são fichinhas. Temos que nos preparar para o que está por vir: uma alta capacidade de armazenamento, transmissão e processamento por um-custo menor”. Ele lembra de Platão, que usou a palavra pharmakon para—se referir, à linguagem. Como o filósofo grego, Marcos, não sabe dizer se a tecnologia para o armazenamento e produção de dados é o remédio ou o veneno da nossa sociedade.

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Historiador contesta origens e formação do islamismo

setembro 10, 2012

O historiador britânico Tom Holland apresenta conclusões que contestam fatos consagrados sobre as origens e desenvolvimento do islamismo. Suas teses são apresentadas em um documentário e no livro intitulado À sombra da espada.

Aqui está uma entrevista que Holland concedeu à Revista Época (Edição 747, de setembro de 2012):

Tom Holland recebeu críticas e ameaças em função de suas conclusões contidas no livro À sombra da espada

Como surgiram as dúvidas em relação à história d islamismo?
Tom Holland – Nos anos 1950 e 1960, historiadores começaram a estudar os hadiths, as citações de Maomé, e a questionar se eram realmente do tempo do profeta. Quando ficou claro que, nesse caso, as “provas” que a tradição islâmica oferecia eram fracas, a estrutura toda começou a ruir. As biografias do profeta, os comentários ao Corão, as informações sobre o surgimento do islamismo, tudo ficou sob suspeita. Recentemente, os historiadores começaram a se perguntar se aquilo que os historiadores islâmicos dos séculos IX e X escreveram sobre o começo de sua fé era historicamente verdadeiro. A conclusão tem sido que, para entender o islamismo, as fontes islâmicas não são suficientes. Assim como se questiona se as narrativas sobre a vida de Cristo, escritas dois ou três séculos depois que as coisas aconteceram, correspondem aos fatos, o mesmo começa a ser feito com o islã.

Corno surgiu a historia do islã que conhecemos hoje?
Holland – Os bispos que triunfaram no Concilio de Niceia, no século IV, reescreveram a história do cristianismo para assegurar que houvesse uma única narrativa, linear, desde os tempos de Cristo. Provavelmente ocorreu o mesmo no islamismo. Existem diferentes interpretações dentro do islã, que parecem recuar no tempo até o século VII. Aquilo que conhecemos hoje como islamismo demorou pelo menos tanto tempo quanto o cristianismo para se consolidar. A história mostra que religiões e grandes civilizações não emergem formadas. Elas surgem pela confluência de circunstâncias e influências. Evoluem lentamente.

O senhor diz que o Corão é composto de várias influências – inclusive mitologia grega -, mas afirma que como documento histórico ele é sólido. Como é isso?
Holland – Quando se estudam as citações atribuídas a Maomé (os hadiths), percebe-se nitidamente que foram moldadas pelo período em que foram escritas. Elas contêm alusões claras a eventos históricos que tiveram lugar décadas e mesmo séculos depois da morte do profeta. Com o Corão, não é assim. Tanto quanto podemos perceber pelas cópias mais antigas, parece que todos aqueles que o copiaram agiram como se estivessem lidando com algo extremamente sagrado. Eles tentavam não mudar nada. Mesmo quando havia problemas entre o texto do Corão e rituais e leis islâmicas correntes, o texto foi preservado. Por exemplo, os muçulmanos rezam cinco vezes ao dia, e isso parece ter origem nas práticas do zoroastrismo, a religião dos persas. Mas o Corão diz que se deve rezar três vezes. Não se tentou alterar o texto do Corão para adequá-lo à realidade, embora isso pudesse facilmente ter sido feito. Ao que tudo indica, o Carão foi tratado como o livro mais sagrado, com que não se podia brincar. Portanto, o texto que temos hoje parece ser algo original, que veio de um período remoto e foi preservado através dos séculos.

O Corão foi escrito quando se diz que ele foi escrito?
Holland – Um de nossos desafios é descobrir precisamente de que período veio esse documento. A tradição islâmica diz que esse texto emergiu pronto da boca de alguém chamado Maomé, que viveu num certo período (570-632 d.C.). O peso das evidências dá apoio à tradição. O Corão parece aludir a episódios que tiveram lugar no início do século VII, um dos quais é uma derrota romana para os persas, que ocorreu na Palestina, exatamente no período em que a tradição diz que o profeta viveu. Há também uma passagem referente a Alexandre, o Grande. Ela ecoa, quase palavra por palavra, um texto escrito no Irã em 630 por um sírio ligado ao Império Romano. Essa é a data mais antiga em que podemos identificar uma fonte no Corão, e ela corresponde ao que nos informa a tradição. Uma vez que você aceita isso, pode aceitar o Corão como uma fonte de informação legítima, primária, capaz de nos dar pistas sobre onde, como e por que Maomé agia.

O senhor diz que Meca talvez não tenha sido o lugar onde Maomé nasceu e deu origem ao islamismo. Por quê?
Holland – Meca é um problema. De acordo com a tradição islâmica, ela era uma cidade pagã, sem traços de comunidades cristãs ou judaicas, e estava localizada num deserto. Maomé, vivendo ali, era analfabeto, porque não poderia ter aprendido a ler. Entretanto, no Corão há centenas de referências a profecias judaicas e cristãs. A Virgem Maria aparece no Corão mais que no Novo Testamento. Não só o profeta parece familiarizado com essas citações, como parece contar com uma audiência igualmente familiarizada com as tradições bíblicas – embora a tradição afirme que em Meca havia apenas pagãos. Algo ainda mais problemático é Meca ser mencionada uma única vez no Corão, de uma forma ambígua. Pode ser uma referência a um vale tanto como a uma vila. Não está claro. E nenhuma outra fonte do período menciona a cidade. De nenhuma forma. A primeira vez que o nome da cidade aparece é em 741. Quase um século depois da morte de Maomé. Mesmo assim, a cidade é localizada num deserto no interior do atual Iraque, não na Arábia. Não acho que Maomé seja originário de Meca. Ele provavelmente veio mais do norte. As evidências do Carão sugerem isso.

Por que a tradição islâmica situa o nascimento da religião em Meca?
Holland – Justamente porque ela é tão remota, tão isolada. Se você acredita que o Corão veio direto de Deus, você tem de deixar claro que não poderia ter vindo de nenhuma fonte mortal. O paralelo é com a virgindade de Maria, na tradição cristã. Se os cristãos acreditam que Jesus é o filho de Deus, divino, eles não podem tolerar que Jesus seja filho de um pai terreno. Logo, Maria tem de ser virgem. Então, se o Corão é divino, se vem diretamente de Deus, os muçulmanos não podem tolerar nenhuma menção de que ele possa ter vindo de influências judaicas ou cristãs. Eles precisavam situar sua origem num lugar o mais remoto possível. Esse lugar é Meca.

Qual sua conclusão sobre Maomé? Ele existiu ou é apenas uma lenda?
Holland – Tenho certeza de que existiu. A dificuldade está em saber quanto mais do que isso podemos dizer. Sabemos que ele existiu porque há um texto de propaganda cristã, em 634, que descreve os árabes num ataque à Palestina sob a liderança de um “profeta dos sarracenos”. Quem poderia ser senão Maomé? Isso parece demonstrar, no mínimo, que alguém muito parecido com Maomé estava ativo na Palestina durante aquele período. Mas Maomé, de acordo com a tradição islâmica, morreu em 632. O mesmo texto que confirma a existência do profeta contradiz a tradição sobre a data de sua morte.

O que os muçulmanos acham de seu livro e de suas conclusões?
Holland – Isso depende. Alguns estão furiosos. Outros reconhecem que o debate é parte do processo de que emergirá uma forma ocidental de islamismo. Na tradição ocidental, é natural que a religião seja alvo de investigação intelectual e acadêmica. Agora que o islã está se tornando uma religião europeia, ele será alvo do mesmo tipo de abordagem histórica que foi feita em relação ao cristianismo e ao judaísmo. Quase todos os muçulmanos com quem conversei foram muito generosos e abertos a respeito de minhas ideias.

O senhor não tem medo de sofrer perseguições por causa de seus pontos de vista?
Holland – Acredito que até mesmo o mais fanático muçulmano aceitaria o direito de alguém que não e muçulmano duvidar que o Corão tenha vindo de Deus. A presunção muito difundida de que questionar a origem do islamismo significa receber automaticamente uma sentença de morte e que barbudos furiosos atacarão quem fizer isso está muito distante da verdade. A islamofobia assume que os muçulmanos são tão violentos e irracionais que, se você apenas questionar sua religião, eles virão matá-lo.. Não acredito nisso. Essa imagem não corresponde a nenhum muçulmano que conheço.

O escritor Salmam Rushdie talvez discordasse dessa afirmação.
Holland – Bem, Salmam Rushdie era originalmente muçulmano. No caso dele, havia uma acusação de apostasia (trocar uma religião por outra). Mas ele também estava fazendo um esforço deliberado de provocar. Defendo seu direito de fazer isso como artista, mas insultar propositalmente a figura do profeta é muito diferente de questionar as bases históricas do que sabemos a respeito dele.

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A trajetória de Margareth Tatcher

março 5, 2012

A Dama de Ferro, retratada no cinema por Mery Streep, foi primeira-ministra da Grã-Bretanha de 1979 a 1990 e única mulher a ocupar o cargo. Além do pulso forte, Thatcher tinha um lado dona de casa, em que se preocupava com a família e os jovens.

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A importância da arqueologia histórica

março 5, 2012

O crescimento acelerado das cidades traz em geral a destruição de parte do passado. Por isso, a arqueologia busca manter viva a história, até mesmo descobrindo novas formas e modos de vida de outras épocas, ajudando a preservar o passado.

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Vídeo: A História da História

fevereiro 16, 2012

O vídeo abaixo é uma interessante opção para rever fundamentos, conceitos e aspectos metodológicos a respeito do conhecimento histórico. Vale a pena a revisão.